Texugo e Dionísio

Texugo

Rafael, 23 anos.

Filho do empresário e contraventor Armando e da nutricionista Maria das Dores.

Carla é sua irmã mais nova, tem 17 anos.

Rafael é filho do homem perfeito _ na visão da sociedade: homem, heterossexual, cristão, de direita, branco, peso ideal, altura mediana, olhos e cabelos claros e de classe média alta.

Rafael é quase tão perfeito _ na visão da sociedade _ quanto o pai.

Ele é homossexual... mas não sabe.

Desde pequeno tem preferência por coisas de menina, na escola gostava de ficar próximo do meninos, apesar de sua voz ser completamente normal ele tinha gestos "leves" com as mãos. Como seus amigos diziam "ele fazia uns gestos estranhos".

Esses gestos lhe rendeu o carinhoso apelido de Texugo.

O fato de ele não gostar da alcunha fê-la pegar mais rápido.

Seus pais desconfiavam do jeito do filho, mas não queriam acreditar no que viam. A irmã para ter certeza apenas precisava que ele confirmasse.

Por conta disso, a religiosidade era algo que a mãe incentivava muito no filho. Todo domingo ele tinha que ir para igreja, tinha que participar do grupo de jovens aos sábados e da organização das festividades.

O pai incentivava o filho a cuidar dos negócios. Dava-lhe aulas de contravenção, digo, administração e política.

Tanto pai e mãe tinham uma visão particular da sociedade, que para eles era dividida em 'nós, os ricos' e 'eles, os pobres'. Ambos eram chefes durões, odiados por seus subordinados.

"A escória", como eles diziam em casa.

Os filhos não podiam misturar-se com os pobres. Se for pobre e negro, a distância tinha que ser maior.

Bolsista da escola? "Nem pensar! Além de pobres, parasitas!"

Na faculdade ele se junta a mais quatro amigos e eles formam uma espécie de clã.

Texugo não gostava da ideia, mas aceitou para estar próximo de Julio Cesar, um dos caras mais populares da faculdade.

Mas ele estava tomando um caminho desconhecido. A cada dia ele sentia mais atração pelo rapaz, e não conseguia entender o porquê.

Foi tomado pela angustia, depois pelo medo, pela raiva de ter medo e após pelo ódio.

Ódio de sentir o que sentia.

Era inaceitável ter vivido até então com um homem, e de repente, estar perdido em si mesmo.

Aprendeu com os pais que tinha que direcionar seus pensamentos ruins para outras atividades. Assim como eles faziam com seus subordinados, eram para eles os maus sentimentos.

E ele direcionou, para as atividades do clã.

Eram rapazes de classe média, brancos, cristãos, de direita, machistas, beberrões, maconheiros e cheiradores e racistas.

Carla não acreditava ao ver o irmão com aqueles caras. Mas depois de ter tomado uma bronca dele ao tentar dizer que ele andava com gente que não prestava, ela não disse mais nada, virou espectadora de sua decadência.

Durante uma festa, Texugo viu seu amigo Julio Cesar pegando várias garotas, uma mais bonita e fútil que a outra.

Isso era normal, mas naquele dia não foi. Ele começou a beber demais, fumar demais e cheirar demais. Arrumou uma briga na festa e foram expulsos pelos seguranças.

No caminho de volta para o carro, eles falavam da briga, de como estavam sedentos por sangue e de como bateriam no primeiro pobre que vissem pela frente.

Lá, desgraçadamente, estava o velho Dionísio, quando ainda não era caolho.

Ele ouviu os passos e um deles gritando: "Ali, aquele mendigo mesmo".

Texugo tomou a frente e acertou o olho do pobre velho, os demais também o chutavam sem piedade.

Dionísio chorava de desespero, não sabia porque lhe faziam aquilo.

Após o linchamento, Texugo pôde ver as lágrimas entre o sangue do velho.

Um choque o tomou e até a bebedeira se foi.

Aquela imagem o assombrou.

Era mais do que a imagem do velho, era sua própria imagem.

Houve uma testemunha, mas esta foi convencida $$ a não falar. Era só um mendigo apanhando, ninguém importante.

Dificilmente Dionísio terá uma resposta direta de seus agressores. Ele vai esquentar aquele banco por muito tempo.

Quarenta e dois dias depois, Rafael, às vésperas de seu vigésimo quarto aniversário é encontrado morto, enforcado no quarto de seus pais.

Ao lado dele um bilhete para a irmã: "Você sempre soube, conte a todos. Sobre o velho, peça-lhe desculpas. Amei a todos vocês".


Boa semana a todos!


O Caolho da Cracolândia

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