Sobre Ateus e Modinha

Eu vi a imagem abaixo no facebook algumas vezes, ela em si não me incomoda, o que me incomoda é gente compartilhando como se fosse verdade, e tem hora que não tem como tolerar gente compartilhando mentira bem na sua cara. Não é uma resposta pra pessoa que a fez, é mais uma reflexão sobre o que está escrito. Vamos lá o/
Imagem do desenhistaquepensa
Não sei de que lugar o sr desenhista tirou essa polarização entre "ateu verdadeiro" vs "ateu modinha", e ainda colocou um desenho do Richard Dawkins _ que ficou bem legal, diga-se _ para representar o ateu modinha _ o que é um insulto com um grande divulgador de ciência que ele é.

Primeiro lugar ateu é quem não acredita em deus ou deuses. Ponto. Se é ateu modinha ou não, não importa, desde que não creia em deuses, é ateu, e de verdade.

Por moda, entendo que é o mesmo que tendência. Quando falamos de moda para consumo, é quando pessoas consomem um determinado bem porque outras pessoas o fazem, mesmo sem que haja uma real necessidade para tal. Hoje em dia o smartphone está na moda, mesmo que a pessoa não use 98% de suas funções, ela ainda o possui.

Quando falamos de ideologia, imagino que determinadas circunstâncias sociais favorecem que um assunto esteja mais em voga que outros. A queda das torres gêmeas; os casos de pedofilia de padres acobertados pela igreja católica; o crescimento das igrejas evangélicas e a tentativa sucessiva de teocratização dos Estados; somados a popularização das redes sociais, criaram um terreno fértil para que a voz dos ateus, guardados em seus armários por anos, finalmente fosse ouvida como reação aos absurdos cometidos pelas instituições religiosas e seus membros mais extremistas.

Com o assunto falado abertamente nas redes sociais, mais pessoas que não sentiam mais confiança nas instituições religiosas e em seus sacerdotes e em seus seguidores, em reação começaram a se identificar com o discurso ateu, cujo um dos grandes temas era mostrar ao mundo que religião não define caráter, fazendo com que a religião fosse questionada enquanto ponto de referência moral.


As religiões foram tão afetadas que hoje em dia é comum pessoas acreditarem em deus, mas admitirem não estarem vinculadas a uma religião específica. Pastores e até o ex-papa Ratzinger (Bento XVI) foram em público declarar guerra ao ateísmo.

Muitos jovens entraram na onda do ateísmo, e como acontece em qualquer segmento da sociedade, muitos por mera tendência, se deixando levar pelas palavras (muitas vezes mal interpretadas) de outros ateus famosos como Dawkins, Sam Harris, Hitchens, Dennet e etc. Eu pelo menos percebi que no começo, quando uma pessoa acabava de se identificar com o ateísmo, uma espécie de ressentimento contra a religião crescia, é como se a pessoa se sentisse enganada e necessitasse atacar, mesmo que com piadas, a religião o quanto fosse possível.

Os discursos de Dawkins, Harris e Hitchens sempre foram mais ácidos, e isso para quem está sedento por sangue religioso, é munição mais do que bem vinda.

[Esse discurso ressentido e mais popular faz a ATEA mais famosa que LIHS].

Só que isto ainda não é suficiente para dizer que os ateus que embarcaram nessa onda, agem todos de uma mesma maneira, e todos aqueles que já eram ateus antes, agem também de uma maneira definida.

Vamos verificar os argumentos do sr desenhista que pensa.

"Acha a ideia de um deus interessante mesmo sem acreditar"

Lembrando que o ateu verdadeiro é aquele que não crê em deus ou deuses, e apenas isso. Um ateu pode sem duvida alguma achar a ideia de um deus absurda e nem um pouco interessante, a questão é mais quais argumentos ele usa para demonstrar isso. Eu particularmente acho interessante, mas nenhum destes deuses que as pessoas acreditam (deus cristão, deus mercado, etc), eu simpatizo muito com o monstro do espaguete voador.




"Encara a ciência como algo que pode ser contestado, e não como uma religião"


Para que algo seja uma religião, é necessário haver um elemento que transcenda (que está além) o ser humano e que haja uma relação entre o ser transcendente e o ser humano. Apesar do budismo não ter um deus, existe a possibilidade de transcendência do budista (Nirvana) através da meditação. No cristianismo o fiel se comunica com um deus transcendente através da oração, o fiel crê que seguindo as palavras da bíblia (exceto o Deuterônimo hehe) pode fazer sua alma transcender após a morte. A ciência é uma ferramenta humana, ela não pode transcender, portanto não pode ser uma religião.

Porém, um outro jeito de ver as coisas, seria colocando a palavra religião como uma forma ideal de se ver o mundo, como um ídolo, tal qual acusa Nietzsche em sua obra o Crepúsculo dos Ídolos. Neste caso, a ciência poderia ser vista como religião, quando sua relação se inverte: ela deixa de ser uma ferramenta humana e começa a instrumentalizar os humanos para seu próprio desenvolvimento _ ela vira um ídolo. Com isso, muitos cientistas ou pessoas que confiam na ciência, a veriam não como um meio e sim como um fim em si mesma, a protegendo a todo custo.

Essa visão "tudo pelo bem da ciência" pode ser extremamente danosa para a sociedade se combinada com maus políticos _ Hiroshima e Nagazaki que o digam.

Agora, tenho minhas dúvidas se só ateus modinha acreditam nisso.

Hiroshima
"Tem consciência da importância da religião para construção de nações saudáveis" ou "Não enxerga todas as coisas boas que as religiões trouxeram para as nações"

Desde que ele não esteja superestimando estes argumentos, eles são válidos.

Um dos elementos necessários para que as pessoas se motivem a viver é acreditar em algo que dê sentido para suas vidas e a religião ocupa este espaço. O sofrimento e o nível de instrução parecem ser variáveis que fazem o ser humano tender a ser mais ou menos religioso.

Em lugares muito pobres, ao invés das pessoas se voltarem contra deus devido a sua miséria, o efeito é contrário, as pessoas tem mais fé, porque talvez seja a única coisa que as mantém vivas.

Em lugares com alto nível de instrução e pouco sofrimento, a crença se faz menos necessária. Na Escandinávia o assunto religião é estranho para eles, a crença em deus ou deuses não é negada, é ignorada.

"Defende a família, valores e não é relativista"


O que é defender a família? É respeitar os pais, irmãos e primos? Um ateu modinha odeia os próprios irmãos e bate na mãe? E se minha família for de gente escrota que não me respeita? Tenho que defender esta família mesmo assim?

Defender quais valores?

Segundo os valores (contidos nos livros) cristãos e até muçulmanos, a homossexualidade é passível de apedrejamento até a morte. Este valor tem que ser defendido? O modelo de família destas religiões tem que ser defendido?

Soa muito vazio essa coisa de defesa dos valores. Os valores são complexos e as situações da vida também o são. Em épocas diferentes a sociedade lida com determinados valores de formas diferentes. Exemplo:

A confiança é um valor, é a confiança que é a base dos relacionamentos, dos namoros, casamentos e até da paz entre as nações. Ter confiança então é bom, certo? Ao chegar na sua casa, deixe todas as portas e janelas abertas, confie que ninguém ou nenhum bicho vai invadir sua casa ou que não vai chover enquanto dorme. Ter confiança aqui não parece muito bom.

Pois então, confiança e desconfiança são valores e ambos podem ser bons e ruins dependendo da situação.

Concordo que ser relativista é um problema pois o outro deve ser levado em conta. Mas achar que valores são absolutos o tempo todo tampouco é positivo.

"Culpa o homem pelas tragédias e assume os erros da humanidade" e "Não acredita em deus, mas culpa deus por todas as tragédias"

Hein?! Como culpar alguém que não existe?

Posso ser legal e entender que ele quis dizer "culpar os religiosos ou instituições religiosas por certas tragédias cometidas em nome de sua crença".

Por todas as tragédias é um exagero, mas por muitas tragédias, sem dúvida. E mais, eu acho que essa frase quer isentar não deus, mas a religião de culpa por várias atrocidades, e isso não cola.

Se uma legião de cristãos parte numa cruzada com a promessa de irem para o paraíso e terem seus pecados perdoados, sim, é culpa do cristianismo, que é formado por pessoas que o manipulam a seu bel prazer.

[É tipo dizer "o Estado não faz coisas más, quem faz coisas más são os agentes do Estado". Existe uma correlação inescapável entre o sistema e seus componentes].

A religião não é algo que vive apartado da sociedade, ela pode, e ela é, sempre foi e sempre será braço dos poderosos que farão de seus fiéis instrumento de suas maldades. Por mais que ter fé seja considerado uma virtude por uma parte grande da população, não saber pensar por si mesmo tem se mostrado muito mais danoso para as sociedades em geral.

"É inteligente"

Afirmação absurda.

Qual forma de inteligência? Não tem ateu burro? E porque um ateu modinha não é inteligente?

"Deseja acabar com as religiões" e "Odeia a ideia de um deus"

Porque um "ateu de verdade" não poderia sonhar com o fim das religiões se ele as considerar, apesar de suas coisas boas, um mal no mundo?

Eu acho que se as pessoas pelo menos acreditassem em deus e não seguissem religião alguma, o mundo seria melhor. Se livrar de Macedos, Malafaias, Waldomiros, Ratzingers ditanto regras morais e cobrando por isso, seria maravilhoso.

E qual o problema de odiar a ideia de um deus? Se todos os deuses disponíveis para crença no mercado tem sido insuficientes para acabar com a miséria e dar paz a este mundo, porque ter motivos para gostar da ideia?

Faz sentido não gostar da ideia, e isso não faz de alguém ateu modinha ou não.




"Usa argumentos fracos"

Um anarcomiguxista, um cristão, um socialista, um empreendedorista, um vegano, um justiceiro social, um desenhista e todos que seguem quaisquer ideologias e não sabem o suficiente sobre o assunto, incorrem no risco de usar argumentos fracos para defender suas posições, isto não é privilégio de um "ateu modinha". E também não quer dizer que um ateu modinha não sabe usar bons argumentos, ou que um ateu de verdade só use argumentos fortes.


"Toma toddynho"

Imagino que o ateu de verdade deva tomar Nescau, mas Toddynho é muito melhor =D

Links

G1 - Cresce número de pessoas sem religião, dizem especialistas do RS

Pew Research - A closer look at America’s rapidly growing religious ‘nones’

Paulopes - Bento 16 associa ‘extremismo ateu’ à tirania dos nazistas

Comentários

  1. Sei lá cara, acho que os argumentos da imagem são melhores que os seus mas de boa.

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    1. Olá Miguel. É um direito seu achar os argumentos do desenhista melhores que os meus, mas seria mais enriquecedor para o debate você demonstrar onde exatamente isso ocorre, do que simplesmente emitir uma opinião vazia.

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  2. E outra amigo, pelo fato de que acreditar em Deus é ter fé, não tem como uma pessoa afirmar que ele não existe e também que exista, porque como eu disse é questão de fé amigo. Porque nem você e nem ninguém pode afirmar isso.

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    1. Eu não entrei no mérito da existência em momento algum. O mais próximo que cheguei disso foi nesta sentença: "Como culpar alguém que não existe?", mas só para esclarecer, caso não tenha entendido, ela é uma resposta lógica a constatação "Não acredita em deus, mas culpa deus por todas as tragédias", ou seja, não entrei no mérito da (in)existência, só quis demonstrar que não faz sentido lógico alguém culpar algo que, para a pessoa, não existe.

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  3. E por favor sobre ''odeia a ideia de um Deus'' argumente melhor porque seu argumento tá muito fraquinho.

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  4. Porque cara presta atenção, mas preste atenção mesmo a culpa de todas as coisas ruins no mundo é da humanidade , enfia isso na sua cabeça ''odiar a ideia de um Deus'' por que isso? por que odiar a ideia de um Deus? não precisa apoiar essa ideia mas odiar algo que você não acredita é muito esquisito.

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    1. Digamos que alguém tenha tido a seguinte ideia: o mundo é governado por uma abóbora gigante que usa humanóides de todas as galáxias para sua própria sobrevivência.

      Isso é uma ideia. Ainda que isso não exista (quer dizer... não posso afirmar isso categoricamente, dado que não possuo evidências da inexistência desse deus-abóbora, porém, tampouco temos evidência da existência do mesmo, então fica a critério de cada um crer ou não nisso) ela pode ser apreciada ou não. Ninguém é obrigado a gostar dessa ideia, e qualquer um tem o direito de odiar essa ideia (abstração).

      Então sim meu caro, podemos odiar ideias tranquilamente, não importa se essa ideia existe ou não.

      Não estou certo se os seres humanos são culpados por todas as coisas ruins do mundo. Picada de cobra ou mordida de crocodilo são coisas ruins, e não necessariamente são obras humanas.

      "porque odiar a ideia de um deus": eu não disse que odeio essa ideia _ tampouco disse que essa ideia me agrada _ disse que faz sentido odiar a ideia (e já expliquei acima e no post os motivos).

      Mas se sua preocupação for a disseminação do ódio a todas as religiões e aos deuses, fique tranquilo, essas crenças continuarão a existir, porque a grande maioria dos seres humanos não suportam viver sem suas muletas psicológicas.

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