Acumulação e Negação

Aqui do alto observo esta noite, mais uma noite de novembro, igual a tantas noites deste ano quente. Tudo que ouço são corujas, grilos, poucas buzinas e a sirene do guardinha de moto. Toda vez que o escuto fico imaginando como deve ser pilotar a moto ruas acima e ruas abaixo, sem rumo, solitário.

Não sei se ele corre do perigo ou na direção dele. Covarde que sou, eu correria do perigo, migalhas não me fariam dar a cara a tapa. Ou fariam?

A noite está tão fresca e ninguém sabe disso. Sabem do que estão vendo na TV, coisas sobre lugares que eles nem sabem onde ficam. E estão perdendo a noite, e pior, não deixam seus filhos saberem, dizem que a rua é perigosa, como se bandidos não pudessem arrombar janelas e pular muros _ não nessa ordem necessariamente.

Daqui vejo de tempo em tempo um carro de policia, e isso me faz ter orgulho da nossa segurança. Orgulho esse que dura tanto quanto um piscar de olhos. Não é segurança que eles trazem, é o medo, é o nosso medo. Uma boa sociedade não depende da polícia, mal vê a polícia, mal sabem para que serve.

As pessoas estão em suas casas descansando para o novo amanhã, mais um belo dia cheio de vida e significado, dia de trabalho, dia de juntar um pouco de dinheiro para ganhar a bolada no fim do mês, o milagre da bonança do capitalismo, a maior mostra de amor ao próximom quase filantropia do senhor feudal, aquele a quem devemos obediência e submissão. O dono das regras do vestuário, horário, movimento corporal, palavras a serem ditas.

É a negação diária do nosso ser, em troca de sal, suor e cortisol.

Ultimamente tenho estado muito irritado com o capitalismo. Ele me obriga a gastar o precioso tempo da minha curta vida com atividades e leituras que de fato não me interessam.

(Ouvi um gemido de mulher aqui perto).

Eu gastei 4 anos numa faculdade que não gostava e 4 anos em um emprego que odiava, e me pergunto: até quando? Até quando vou deixar este sistema condicionar aquilo que sou, e que me faz me negar um pouco mais a cada dia?

O capitalismo é um sistema de acumulação-negação. Para cada produto adquirido, uma parte sua é negada. É um ritual que exige sacrifício constante.

Mas como se contentar com tão pouco, se o mundo ao redor está todo em oferta?

Ser saiu de moda, sendo assim eu sou cafona, old school, como queiram.

Eu cansei de me negar!



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