Teocapitalismo




Não sou contra as pessoas acreditarem em algo, mesmo que seja em algo que não faça muito sentido, ou melhor dizendo, que não tenha uma base de sustentação baseada na racionalidade e lógica.

Não consigo concordar mesmo com Richard Dawkins quando ele diz que o mundo será mais feliz sem as religiões. Penso que a forma de agir do ser humano é um fator intrínseco a ele, isto é, se você é um ser vivo desprezível e maldito, o será crendo no cristianismo, crendo no budismo ou no ateísmo _ mas devo reconhecer que é uma aposta audaciosa.

Os religiosos podem ficar a vontade para criticar ciência, mas não a culpem de falta de investigação, estudo e racionalidade. A ciência pode ficar livre para condenar os religiosos por falta de pensamento crítico, por atitude ovelhesca e por qualquer outra coisa, mas, se a vida não tem sentido em si, e, se somos nós quem damos um sentido para nossas próprias vidas, faz sentido ignorar um pouco da razão em nome da felicidade e de um consolo eterno.

Quero dizer que não há regras para a vida e para o pensamento, talvez o que exista mesmo seja coerência e seu inverso, de acordo com uma linha de pensamento adotada.

Tirando um pouco os olhos dos indivíduos e olhando para a sociedade como um todo, não há razões para não se ter um certo asco das religiões. Travestidos de homens de fé, de moralistas, de construtores de um mundo justo e belo, muitos homens (e escassas mulheres) tem tomado a frente de suas instituições para espalhar entre suas ovelhas (não é uma ofensa, pastor, até onde sei, é um domesticador de ovelhas), uma visão de mundo tacanha, divisionista, expansionista e claro, mentirosa.

Querem fazer suas ovelhas crerem que há um nós, um grupo unido contra um inimigo comum. Sendo assim eles personificam seus alvos como se fossem o diabo, lúcifer, satanás, capeta, tinhoso, coisa ruim e etc. Essa atitude divisionista, que em nada ajuda a sociedade, é seguida pela sua eventual expansão: reunir o maior número de pessoas com as mesmas ideias (ou falta delas) para fortalecer seu exército e tentar, através da sociedade, exercer seu poder. Depois disso vem a propaganda constante, onde o inimigo passa a ser observado de perto, e cada erro seu é uma vitória, um motivo a mais para que o nós se fortaleça. Cria-se um ódio do outro, espera-se uma crise maior, e de repente você tem todos na mão para os ataques frenéticos e histéricos. 

Eu devo ter viajado um pouco, porém esse é o método tradicional de como se cria uma guerra. No caso que chamo a atenção a guerra está no campo ideológico _ pelo menos não consigo enxergar uma guerra civil por conta disso, não que seja impossível, apenas improvável, no momento.   

Estes micro-exércitos criados nos templos, tem a finalidade de exercer pressão na sociedade para realizar as agendas de acumulação de poder e dinheiro de seus comandantes: os malafaias, macedos, cavalcantes

Costumo dizer que o pastor Malafaia não odeia os gays, não do jeito que ele diz, não porque ele seja um homossexual enrustido (não que isso seja uma hipótese descartável), mas porque ele precisa unir seus fiéis de algum modo. A agenda dele é fazer com que sua igreja cresça e fique tão grande quanto a do Macedo, que tem uma rede de TV e filiais espalhadas pelo mundo todo. Ele não tem compromisso com a sociedade brasileira ou com os costumes do povo, está pouco se lixando.


Malafaia apoiou o José Serra, candidato da classe média paulista, se apoiando contra o chamado kit gay, elaborado pela secretaria de educação enquanto Haddad era o ministro. O kit anti-homofobia, o próprio José Serra havia aprovado anos antes enquanto governador, mas o pastor foi esperto e simplesmente fez vistas grossas para isso _ esperto não foi o Serra que acabou ficando manchado com o apoio do pastor...

Com isso tudo eu quero questionar a utilidade desse pensamento expansionista e divisionista de alguns grupos religiosos que pautam suas agendas no poder e no dinheiro _ mais destacadamente os evangélicos e católicos.

Eles querem ter mais voz, querem impor sua vontade ao Estado _ como faziam na idade média e moderna _ não querem respeitar a multiplicidade de crenças existentes para que o povo todo se curve diante deles. É uma teocracia que essa gente quer.

Mas não se iludam: não querem uma teocracia porque eles acreditam piamente em deus e são homens de pura fé, e sim porque este é o modo mais fácil de estar no poder, gozar da riqueza e dos privilégios nas costas do povo.

Deus para eles? que se dane! Palavras de Jesus Cristo sobre humildade e bondade? para os pobres, não para eles!

São os primeiros a apontar seus dedos imundos e manchados de sangue para a tal "decadência da sociedade", "abandono dos valores cristãos", "esquecimento da família brasileira" _ deve-se sempre desconfiar de pessoas que mantem este tipo de discurso_ mas estão atolados até a nuca com a sujeira de suas ações vis.

Volto ao início deste texto: não sou contra a crença pessoal dos indivíduos, cada um devia ser livre para pensar e acreditar naquilo que quisesse, no entanto, o que eu jamais posso ser a favor, é desse método teocapitalista que quer impor dominação sobre todos e qualquer um, usando a fé de pessoas de bem, que cegamente contribuem com o mal, muitas delas, sem mal saber.


Auf Wiederesehen!


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