Corruptos são os outros

A faxina tem que começar por quem varre...

"Político? Tudo ladrão!"

Ademir resume em três palavras tudo aquilo que o brasileiro médio entende de política. É um sábio, é a voz do povo!

Essa raça não pode ver um pouco do dinheiro do contribuinte flutuando por aí que logo quer meter no bolso. Não pode ver um cargo livre, que logo emprega o vizinho do primo do cunhado da sogra do avô do irmão, que é um parente próximo, um brother de boemia e Bohemia de qualquer sexta-feira.

Só que o Ademir não sabe, ou se sabe, ignora, que ele, advogado, um dotô _ sem doutorado _ também participa deste ciclo vicioso chamado corrupção. Semana passada ele chamou dez jovens estagiárias para um processo seletivo, e escolheu Suzana. Ela não era a mais inteligente, a mais bonita nem filha de amigo, mas foi a única que aceitou suas demandas libidinosas.

"Foi presente de deus" disse ele para seus sócios _ curiosamente ele tem um adesivo destes no seu carro novo. Só que deus neste caso, era um fazendeiro que grilou terras e depois expulsou aqueles vagabundos dos sem-terra, que moravam num pedaço improdutivo. E como sabemos, a propriedade privada é sagrada.

Ademir não sabe, mas semana que vem, tem jogo do Brasil il il contra Inglaterra. Ministros, juízes, deputados e senadores assistirão em camarotes vip, for free, de grátis. Não sei se o Ademir sabe, mas usar de posição privilegiada para ter mais privilégios _ e distribuí-los na camaradagem _ também é uma forma de corrupção.  

O Ademir não sabe, mas a empresa que fica ao lado do seu escritório, tem um rapaz que é comprador. Este rapaz ganha presentinhos da empresa Xis para comprar seus produtos de má qualidade. Dizem as más línguas que até moto 400 cilindradas ele ganhou _ outro presente de deus.

O dotô Luigi _ que também não tem doutorado _ também participa das boemias e Bohemias com o Ademir. Ele é médico e tem uma rotina peculiar. Acorda cedo e vai para o hospital público passar seu dedo indicador sujo no relógio biométrico _ aqueles que coletam a digital _ feito isso, ele vai para seu consultório, de tardinha ele volta, atende um ou dois impacientes, passa o dedo e vai embora. Chega em casa e vai ver o telejornal plim plim, aquele que só passa o Brasil que o sinhô K-mel quer vender. O dotô assiste, se desinforma e mesmo assim se dá ao luxo de raciocinar (?), chegando a brilhante conclusão Sartrica: corruptos são os outros! 

De repente se é candidato e de repente se é político e de repente se é corrupto. Esta evolução faz tanto sentido quanto a paradoxal evolução criacionista, e cinco mais cinco é quase igual a trinta e sete.

Os dotores não entendem que a corrupção per se, não é uma causa, é uma consequência, é um produto final de uma série de pequenos comportamentos nocivos e repetitivos. É tipo um câncer, um câncer social.

Mas não, a culpa é sempre do político safado cachorro sem vergonha.

"Queremos o fim da corrupção" clamam os trolhas. Vamos denunciar, vamos prender, vamos meter atrás das grades e jogar a chave fora!

Depois de prendermos todos os corruptos e corruptores, vamos eleger outros candidatos, não suecos, nem neozelandeses, mas brasileiros.

Enquanto isso vamos manter livres _ com direito a voto e a vomitar julgamentos morais _ os professores, os jornalistas, os pais, as mães, os dotores sem doutorado, os doutores, os juízes, os pedreiros, os garis, as gurias, os estudantes e toda a população corrupta que habita este planeta.

Porque afinal, a culpa é do político. Porque afinal, Sartre concordaria com o dotô: corrupto, são os outros!

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