A noite em que Americana foi pra rua!

E o povo foi pra rua!
"Vem, vem pra rua!! Vem, vem pra rua!!"

E não é que o povo foi para rua mesmo?!

Mais de 15mil pessoas, a maioria entre 18 e 30 anos (classe média, branca), foram as ruas do centro de Americana protestar contra... um montão de coisas.

Nunca achei que o povo desta cidade se mobilizaria para ir as ruas por qualquer coisa que fosse. Mesmo eu acreditando que o povo daqui pegou a onda das demais manifestações pelo Brasil. Mas não importa tanto assim, o legal foi ver a galera nas ruas com cartazes, faixas, bandeiras, apitos, caras pintadas e máscaras de Fawkes [se bem que segundo a lei, a manifestação não pode ser anônima] cantando e gritando por um Brasil melhor.

Havia um trajeto pré-determinado e combinado com as autoridades para manifestação _ como manda o artigo 5º CF _ mas no fim das contas ele foi encurtado.Veja qual foi o trajeto aqui no maps.

Praça Comendador Müller

Cheguei à Avenida Antônio Lobo por volta das 18h30 e o pessoal já estava descendo a Rui Barbosa, vindos da praça Comendador Muller. De cara reparei que havia muita gente jovem, faixa de uns 20 anos, já com cartazes que produziram durante a semana. O povo seguia tímido, sem fazer muito alarde, um ou outro ameaçava algum hino ou cântico, mas como não eram acompanhados, logo cessavam. Nos cartazes se via frases como "País mudo não muda", "Fora Feliciano", "Abaixo a PEC 37", "O Gigante Acordou" e alguns trechos de canções famosas que iam de Raul Seixas à Legião Urbana.

Já subindo em direção a Sete de Setembro, o prefeito Diego De Nadai invariavelmente era hostilizado. As principais reclamações eram sobre os hospitais, o excesso de dinheiro gasto na Avenida Brasil. Algumas pessoas me disseram que ouviram reclamações sobre os buracos, eu não ouvi, mas vi pichações ao redor de vários buracos, algumas delas com a maldita sigla: IPVA. Ainda na Sete, algumas pessoas, idosas inclusive, surgiam nas varandas dos prédios balançando panos brancos, em clara solidariedade à manifestação, o povo na rua bradava mais forte o convite: "Vem, vem pra rua!! Vem, vem pra rua!!". Muito legal mesmo!

"Tem tanta coisa errada, que nem cabe no cartaz". Este cartaz que vi por lá, resume muito bem a diversidade de questões que estavam sendo levantadas. Por exemplo, vi um que pedia respeito a laicidade do Estado, e outro cristão _ bem divertido _ que dizia: Ora que o Brasil melhora. Aham... Ah, os 20 centavos e o passe livre? É, tinha gente reclamando disso também.

Enquanto isso, o prefeito De Nadai era xingado de novo, e os policiais, que pareciam bem cordiais, só acompanhavam a caminhada. Sobrou até para festa de tortura de bovinos e equinos do peão.

Prefeitura
Como o pessoal do fundo parecia que estava mais caminhando do que se manifestando, eu decidi avançar mais rapidamente e tentar chegar mais frente do bolo. Ao passar pela prefeitura, o povo perguntava "Cadê, o Diego?". Pura ironia, nenhum governante iria aparecer, aliás, segundo notícia, os senhores vereadores encerraram seus trabalhos às 15 horas. Medo do povo? Medo de terem seus carrinhos zoados? Medo de serem xingados? Segundo o Paulo Chocolate, não tem nada a ver...

Na Avenida de Cillo, um dos coros mais legais da noite "Doutor, eu não me engano, quem tá doente é o Feliciano"! O povo convocava o pessoal dos prédios à rua, enquanto estes, inclusive crianças, acenavam para o povo na rua.

Baciada de gente na Brasil
O cenário da descida da rua das Paineiras, cruzando a Brasil e subindo a rua Bolívia era inacreditável _ em termos de Americana _ uma baciada de gente!! Ali não havia silêncio, era todo tipo de canto, trechos do hino do Brasil, mais cartazes, um baita calor, muita gente feliz e nada de violência. Algumas pessoas pararam o carro próximo, desceram e ficaram só assistindo a tudo de camarote _ mais legal e mais barato do que da festa do boi =D

Na Fortunato Faraone, ao passar diante do quartel do DOPS da PM, o povo cantou "Ei, você aí fardado, você também é explorado!", olhei para os guardas, alguns riram, outros não gostaram e outros se mantiveram indiferentes. Havia um prédio bem bonitão e grande, com apartamentos enormes. Deste tipo de prédio, você não via ninguém ir até a janela. Gentalha! Vários comércios que ficavam nas ruas por onde o povo passou, ficaram fechados, acho que foram dos poucos a reclamar da manifestação _ além dos conservadores.

Frente da câmara
Finalmente o povo chega até a praça, toscamente chamada de Divino Salvador, que fica em frente a câmara municipal e ao teatro Lulu Benencase _ em reforma desde fevereiro, de 2011. Enfim. Lá o povo se reuniu, cantou o hino nacional e refez todas as reivindicações ao mesmo tempo. Alguns subiram no portão da CM, observados pela polícia do lado de dentro. Mais pichações _ uma delas em um carro da guarda municipal. Segundo notícias, o único incidente foi com um rapaz, onde ao tentar soltar uma bomba, ela explodiu na mão dele =/

Por volta das 21h30, acabou-se o que era doce. Voltei no local, uma hora depois, e não havia ninguém, só alguns cartazes no chão que "esqueceram" por lá.

Sentimento de missão cumprida? nem um pouco.

Para mim esta manifestação, sem muito foco, diga-se de passagem, talvez foi um treino, um reconhecimento do campo, uma forma de fazer o povo gostar mais das ruas. Queria muito que os jovens da faixa dos 18, 20 anos entendessem a importância histórica por trás desse ato simbólico, aliás, queria que todos entendessem isto, inclusive eu, que confesso, fiquei meio confuso em meio a tudo aquilo.

O Brasil é um país de mentalidade colonial, construído sempre de cima para baixo, sempre oprimido pelas castas mais altas, sejam elas monárquicas, ditatoriais ou capitalistas.

Este ato do dia 20 de junho de 2013 pode ser mais importante do que imaginamos. Não, não vamos acabar com governos e tomar o poder, isso trará o caos, certamente _ historicamente, inclusive, tem sido assim. Mas com consciência política e atitude transformadora, nas ruas e na urnas, certamente dá para fazer as coisas tomarem algum rumo, e quem sabe, essa colônia se liberte de seus próprios grilhões ?!

Viva Americana, viva o Brasil!

Fotos: Jornal Liberal (eu estava sem minha câmera lol).
Vereadores com medinho do povo, vão embora mais cedo. Liberal

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