Ah, esses dedinhos...


Eu acompanho futebol, inclusive o futebol brasileiro e principalmente o meu Palmeiras. Não sou nenhum fanático, daqueles que vão a estádio e cantam o tempo todo, choram quando o time perde ou quando é campeão, ou de ficar todo jogo com os olhos grudados na tv ou a orelha no radinho de pilha. Acompanho lances, gols, classificação, entrevistas enfadonhas e um jogo ou outro.

Para quê isso?
Falando de gols, algo tem me chamado a atenção _ e sinceramente me irritado_ de uns tempos para cá: a comemoração dos gols dos atletas. É, a comemoração. Não sei se você, caro leitor, acompanha futebol, se não, por favor perca um tempinho e repare: quase toda maldita comemoração de gol, os atletas apontam seus dedinhos para o céu e agradecem ao ser mitológico cristão pelo gol feito! Isto quando não se ajoelham e se abraçam e começam a gritar o nome do filho do homem.

Essa mania de levantar os dedinhos ficou marcada com o Kaká lá no começo do século XXI, e mais ou menos na mesma época, começaram a aparecer os atletas com camisetas por baixo do uniforme com alguma mensagem, normalmente esta: "deus é fiel" _ algo que soa como se deus torcesse pelo Corinthians, já não bastando a ajuda dos árbitros haha.

Tive vergonha quando o Brasil ganhou a copa de 2002, a copa da confederações de 2009 e fizeram rodinha de oração no meio campo. Fora o Atlético-MG este ano na Libertadores que abusou das manifestações religiosas.

A FIFA tem em seu regulamento que os atletas não podem usar camisetas por baixo do uniforme com mensagens ou propagandas, e não podem carregar em seu equipamento nada que expresse opiniões políticas, religiosas ou pessoais.

Olhem como as coisas são: baseado na mesma norma acima, a seleção feminina do Irã foi impedida de atuar com véu, ou seja, houve de fato uma punição para as iranianas, mas para os brasileiros... não.


O que dizem por aí

O UOL fez uma pesquisa com 105 atletas dos 12 melhores clubes do Brasil e tirou algumas informações sobre homossexualidade, sexo na concentração e até religião.

A amostra de atletas é pequena em relação ao número de atletas do Brasil e pouco representativa, porque se baseia praticamente em clubes do eixo Sudeste-Sul. Outro problema é que em algumas questões, vários atletas não responderam, com vacância de mais de 30%. E o UOL ainda teve a coragem de chamar a pesquisa de PESQUISÃO... lol. O UOL não tomou muito cuidado e publicou que os evangélicos são maioria entre os jogadores brasileiros, mesmo com a recusa de 28% em responder a pergunta sobre sua crença pessoal.


"Pesquisão" UOL
Digamos que essa tendência se aproxime da realidade, e isso em parte explicasse que as manifestações religiosas dos atletas se deve por muitos deles serem religiosos, ou mais especificamente, talvez, por serem evangélicos.

Mas não pode ser só isso. O técnico Emerson Leão quando era treinador do São Paulo em 2011, falou um pouco a respeito para o Folha TV:

"Folha: O fanatismo religioso de alguns jogadores é problema?

Leão: Eu já dirigi time que, de 20, 16 eram de uma comunidade. Você falava aqui, e o pastor mudava tudo de lá. Eu falei: 'presidente, vamos tomar uma atitude?'. Ele disse: 'mas Leão, aí vamos ficar sem jogadores para jogar". Lógico que tem os que te ajudam, mas tem os aproveitadores. Isso vale também para os empresários. Se eles apresentam um negócio, devem ganhar dinheiro com isso. Mas eles não estão satisfeitos: querem ser os donos. O jogador religioso perde um pênalti, perde outro e fala: 'Deus quis assim'. Pô, colabora com ele. Todo mundo pede coisa para ele. 'Mas no futuro ele vai me reservar coisa melhor'. Sério, já cansei de escutar isso."

O jornalista Juca Kfouri também falou sobre o assunto neste excelente texto: Deixem Jesus em paz (LEIA-O) e neste vídeo onde responde o jogador Kaká que se sentiu perseguido por Juca, afirmando que era por causa de sua religião - video.

Durante a Copa América de 2011, Mano Menezes proibiu a presença de líderes espirituais na concentração da seleção brasileira. Nos dias de folga e longe da hospedagem da seleção, estava liberado.

Opinião Pública

Em março desse ano, o jogador grego Giogos Katidis, fez um gesto nazista na comemoração de um gol _veja aqui _ e foi suspenso por 5 jogos pela federação grega além da multa de € 1mil, foi suspenso até o final do ano pelo clube e expulso da seleção grega para sempre!

Giorgos expôs uma ideologia política condenada por boa parte do mundo e por isso foi punido. Na teoria ele não fez nada de errado. Porque veja bem, se o cristão pode apontar os dedinhos para cima porque o nazista não pode fazer o Heil Hitler?

Por causa da opinião pública.

Giorgos, aprende essa: gesto cristão pode, nazista não.
"Opinião pública é a opinião que se pode exprimir em público, sem risco de sanção, e sobre a qual pode se apoiar a ação empreendida publicamente." [Falei sobre isso no post Espiral do Silêncio].

Se você estiver em um país de maioria cristão ou que tolera o cristianismo, e que estas pessoas em sua maioria não vejam problemas com a manifestação, os atletas podem se manifestar sem serem massacrados pela opinião pública. Se mesmo sendo um país religioso, a maioria condenasse manifestações religiosas em um campo de jogo _ por exemplo, por desrespeitar o 2º mandamento bíblico: "não pronunciarás o nome do senhor, teu deus, em vão" Êxodo 20:7 _ quem o fizesse seria muito criticado e muito provavelmente não faria de novo.

Ou seja, tudo depende. Se um satanista marcasse um gol e vociferasse versos satânicos, conhecendo a opinião pública brasileira, ele seria massacrado, criticado e forçado a pedir desculpas por ofender os cristãos _ mesmo sem ter ofendido diretamente, uma vez que ele não xingou ninguém _ assim como aconteceu com Giorgos.

Opinião Pública
Os jogadores só vão parar com isso ou quando cair em desuso naturalmente e eles inventarem outro tipo de comemoração ou se a opinião pública se voltar contra eles. Por isso quem não gosta desse tipo de comemoração, não deve se calar.

É chato para caramba os caras meterem religião no meio do jogo, não tem nada a ver uma coisa com a outra. Tem lugares determinados para demonstração de fé, assim como tem lugares determinados para jogar futebol, não custa nada respeitar isso e entender que existem pessoas que não partilham da mesma crença e podem se sentir incomodadas, assim como a própria pessoa se sentiria incomodada se alguém _ um nazista, um satanista, um umbandista _ fizesse o mesmo.

"Ah você é um chato, intolerante!". Não exatamente. Primeiro, e é até desnecessário dizer, ninguém é obrigado a gostar de nada. Segundo, ou se faça justiça para todos ou não se faça para ninguém. É o mesmo princípio da laicidade do Estado, ou se coloca os símbolos de todas as religiões nas paredes dos prédios públicos ou não deixem nenhum.

Troque a camiseta "deus é fiel" do atleta por uma com a estrela do PT ou o símbolo comunista ou das cores do arco-íris e vai entender do que estou falando.

Voltando no futebol. O cara não faz gol ou erra gol porque uma entidade divina se senta no sofá nas quartas-feiras a noite depois da novela, para determinar resultados: "Hoje o Rogério Ceni vai tomar um frango ... o Seedorf vai fazer gol ... o juiz vai passar a mão no Fluzão ... o Tite vai escalar o Ibson. Amém!"

Para começar, alguém acha mesmo que deus veria o campeonato brasileiro da globo? Faça-me o favor...

Estou com saudade das comemorações criativas, do soco no ar, da dança ao redor da bandeira do escanteio, dos saltos mortais, do artilheiro que fuzila a torcida, das dancinhas... a situação está tão ruim em termos de comemoração, que até as dancinhas do Neymar começam a parecer legais...




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