Reflexão sobre a desigualdade



Finalmente chega o ano de 2014. Não vou parar com o blog, mas também estou menos "intenso" para escrever. Já comecei vários textos nos blocos de nota e acabei os fechando, pois não gostei do que estava escrevendo.

Eu tenho esse mal. Adoro escrever, mas normalmente não gosto do que escrevo.

Qualquer dia vou arrancar a tecla backspace e delete do teclado para conter a maldição de me reescrever tantas vezes. Quando eu tinha apenas o caderno e uma caneta e menos idade, as palavras fluíam melhores, mal precisava usar o corretivo.

Neste ano que passou _ 2013, caso não se lembre _ alguns temas foram predominantes das mesas de bar até as redes sociais: feminismo, mensalão, mais médicos, protestos, transporte público, copa do mundo, desapropriações e tapetão. Pelo menos são estes que mais me lembro.

Tive contato com alguns destes temas e outros nem tanto. Mas nada prendeu tanto minha atenção quanto às críticas ao sistema capitalista e a desgraça da desigualdade social, não só deste país, mas de várias partes do mundo. E algo tem me irritado demais:  àqueles que reproduzem uma visão de mundo tacanha, maldita, viciada e mentirosa.

Os meios de comunicação nos vendem a ilusão da saúde, a ilusão do amor, a ilusão do sexo, a ilusão do status, a ilusão do sucesso, a ilusão da beleza, da magreza, da alteza, a ilusão da felicidade, a ilusão da conexão 3G, a ilusão da ilusão da ilusão...

Na ânsia de nos tornarmos perfeitos, socialmente aceitos ou socialmente admirados, sacrificamos nosso pobre corpo e mente com todo tipo de remédios, drogas, exercícios, cremes, cirurgias, trabalho exagerado e altas doses de senso comum. Tem gente que é corrompida tão facilmente e tão cedo, que passa a vida inteira lobotomizada sem ao menos se dar conta disso, o que é um desperdício enorme.

A vida tenta nos acordar para a realidade a todo o momento, mas fingimos que nada há de errado, e que os problemas do mundo são os problemas do mundo, e não nossos também.

O bandido que matou o playboy tem que ser morto, e está tudo resolvido. Mas ninguém se pergunta por que o bandido se tornou bandido. Faltou educação em casa e na escola? Faltou condição financeira dos pais para criarem o rapaz? Faltou educação para os pais também? A periferia é um lugar violento por causa da má gestão do Estado? O dinheiro destinado para ajudar aquela região foi desviado? Uma lei de aumento de imposto foi derrubada por empresários e impediu maior recolhimento por parte do Estado? A sonegação de impostos das empresas e o número de descontos que elas possuem, inviabilizam menos ainda a obtenção de recursos?

A resposta mais fácil nestes casos é sempre a mais comum _ por preguiça é claro. Vejo por aí muita gente que sabe de tudo. Tem opinião para tudo e acham um absurdo quando alguém não sabe se posicionar sobre estas questões tão “simples”.

O bandido é uma consequência, é um sintoma da doença de nossa sociedade. Os protestos, as greves, as invasões, o trânsito, os homicídios, os suicídios, as faculdades ruins, os programas de TV ruins, a infelicidade, o câncer e o sertanejo universitário (universitário que virou sinônimo de retardado). Tudo isto é sintoma da nossa sociedade doente.

As pessoas veem gente milionária e só faltam ajoelhar-se diante destas figuras abjetas. Calma, eu sei que os luxos arregalam os olhos de qualquer um, até os meus. A sensação de poder ter quase tudo a qualquer momento e sem muito esforço é... exatamente essa que nos é vendida diariamente.

Você que se acha o máximo porque ganha R$ 50.000,00 por mês, odeia o bolsa família, tem Bill Gates como ídolo e anda com carro de tamanho inversamente proporcional ao seu cérebro, saiba que você está muito mais perto da base da pirâmide do que do topo, daquele 1% que você NUNCA vai alcançar.
E mesmo assim, você odeia o pobre. E mesmo assim, acha que quem não ganha o que você ganha, é porque não mereceu, não trabalhou e nem estudou o suficiente. E mesmo assim, você acha que o sentido da vida é recolher objetos e fazer viagens.

Você fica putinho porque o preço do carro é um absurdo, porque a porcaria de um vídeo game custa muito caro. Coisas que são essenciais para nossas vidas. Se todo mundo que ficou putinho com a porcaria do preço do vídeo game, ficasse só metade indignada com o que a “justiça” de São Paulo fez com os moradores de Pinheirinho em São José dos Campos, este mundo certamente seria um mundo melhor.

Mas eu sei. A culpa não é toda sua.

Não somos 100% culpados por aquilo que somos e fazemos.

Somos condicionados a não questionar, desde criança. Condicionados a falácia ad numerum. Condicionados a aceitar pacificamente a verdade.

A verdade que é uma mera construção daqueles que detém o poder.

Fonte: Opera Mundi
O 1%, os grandes milionários deste planeta, tentam de todas as formas controlarem o curso da sociedade para que nada escape de seus interesses. Enquanto o mundo estiver consumindo, e eles enriquecendo cada dia mais e mais, o mundo estará em paz.

Falo de escala mundial, mas isso pode ser verificado mais perto de nós. Pessoas poderosas que fazem todo tipo de maldade para as outras para não perderem sua posição social ou financeira.

Muita gente se pergunta: por que existe tanto mal e ninguém faz nada para mudar? Não acredito que ninguém faça nada, mas acredito que os poucos que tentam, são violentamente forçados a desistir, quando não são mortos.

Fonte: Opera Mundi

As pessoas querem ser felizes, querem viver em paz, mas não conseguem entender que a sociedade tem que buscar isso como um todo. Algumas visões de mundo e alguns valores têm de ser abandonados. Temos que superar a nós mesmos para alcançarmos um novo patamar social.

Não da mais para vivermos neste conto de fadas de acharmos que um dia seremos milionários, e que em nome disso temos que sacrificar nossas vidas, nossa personalidade e as boas relações com as pessoas.
Temos que trabalhar menos, se possível com aquilo que gostamos. Não precisamos de tanto dinheiro, nem de tantos desejos materiais. Precisamos saber mais, falar e ouvirmos mais, rirmos mais. A vida é curta demais para tanto sofrimento, para tanto desperdício.

Tem muito desgraçado por aí vivendo do nosso sangue enquanto chora porque paga muitos encargos trabalhistas _ roubam duas vezes quando sonegam impostos. E mesmo assim, tem gente que admira os Grandes Empresários, Visionários, aqueles mesmos que cortarão sua cabeça sem dó nem piedade no primeiro mês que você não bater a meta. O lucro deles está acima de tudo, acima de qualquer lei, de qualquer moral ou ética. São canibais de terno e gravata.

Agora alguém pode dizer: "credo, você tem muito ódio de quem é rico!"

Não é exatamente isto, mas, e se fosse, qual o problema?

Tem gente que odeia o pobre. E o que o pobre fez de mal para a sociedade? Roubou uma galinha? Vendeu uma latinha de cerveja sem nota fiscal? Jogou um papel no chão? Trocou seu voto por comida?

Não que estas práticas sendo feitas por muitas pessoas, não tenham efeitos sociais negativos. Elas têm, o que é muito ruim por sinal. Mas a questão posta é que muito poderia ser feito por estes que nada ou pouco têm. Entretanto falta a sociedade lutar por isso com mais vigor e pressionar as forças que comandam este país (capital e Estado) a se moverem.

Para isso temos que mudarmos a forma de pensar. Ninguém _ em sã consciência _ luta por aquilo que não conhece ou não se importa. E enquanto ninguém se importar por todas as pessoas dessa sociedade _ seres humanos e alguns animais de nossa escolha _ as coisas não tem o porquê de funcionarem.

É burrice achar que pode haver equilíbrio em uma sociedade desequilibrada.

O Brasil é um dos países mais desiguais do mundo, quando é que vamos acordar para isso?


Tenho medo da resposta...

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