Marcos e a Onça


O relógio marca 17h, a sirene apita e Marcos com um grande sorriso no rosto, pega seu crachá e passa no relógio-ponto. É hora de ir embora após mais um dia cansativo de trabalho. Ele vai até o vestiário, troca de roupa, coloca suas coisas na mochila, pega seu capacete e parte rumo ao portão de saída. Quando se aproxima de sua moto, bate as mãos nos bolsos procurando pela chave, e depois de conferir umas dez vezes e olhar na mochila, se deu conta que esqueceu dentro da firma. Ele retorna para o vestiário e lá chegando encontra sua chave no chão, próximo do banquinho que costuma se sentar para colocar ou tirar os sapatos. Porém, ao lado de sua chave tem uma nota de R$50,00. Ele sabe que não é dele, pois o dinheiro que tinha gastou na hora do almoço. Marcos pega a nota, olha ao redor e repara que não tem mais ninguém no vestiário e sabe que ali não há câmeras de segurança. Marcos não é religioso e não acredita que forças sobrenaturais o espreitam a todo momento. É ele consigo mesmo.

Ele pode pegar a nota, levá-la embora e saber que não será punido por isso, pois como não há ninguém no recinto e não há câmeras, ninguém saberá _ pressupondo que ele também não conte a ninguém.

Como podem ver é um teste de moral clássico. Marcos dialogará consigo próprio a fim de escolher, e escolher é identificar a alternativa de maior valor. E as alternativas que Marcos imagina possuir são:

a) pegar a nota para si;
b) pegar a nota e procurar pelo dono;
c) deixar a nota onde está;

Marcos tem liberdade para deliberar, nenhum fator externo a ele o força a escolher. Marcos pensa em suas escolhas:

a) "Se eu pegar a nota, posso abastecer a moto que está quase na reserva, sobra um pouquinho e posso comer um salgado na faculdade. Não tem ninguém aqui, não tem câmeras, e se eu não contar para ninguém, ninguém saberá. E se eu não pegar, alguém que não seja o dono pode pegar a nota para si. E se eu pegar a nota e for atrás do dono, como eu vou saber de quem é?. Talvez seja melhor pegar.";

b) "Esta grana não é minha, é de alguém. E se eu tomar algo de outra pessoa sem permissão, é roubo. Se fosse minha, eu ficaria muito feliz se alguém me devolvesse. E se eu deixar aqui, alguém que não seja o dono pode pegar e não devolver, e como eu não teria controle sobre outra pessoa, o certo é eu mesmo procurar pelo dono. Talvez seja melhor eu devolver.";

c) "E se o dono vier buscar? Assim como eu refiz meu caminho e achei a chave, o dono dessa nota pode fazer o caminho de volta e encontrar. E se for alguma armação? Alguém deixou aí de propósito para me testar? Bom, a nota não é minha, eu não quero ser chamado de ladrão mas também não vou ficar procurando o dono. Talvez seja melhor deixar onde está".

Durante esta batalha em sua mente, Marcos se lembrou da vez que seu cachorro desapareceu, e 2 meses depois uma moça o encontrou e o devolveu. Ela morava longe, podia ter ficado com o cachorro que dificilmente alguém saberia, mas mesmo assim o devolveu sem fazer questão da recompensa. Lembrou também de uma outra vez que o mesmo cachorro havia sumido, mas desta vez ele mesmo o encontrou, 10 dias depois, correndo no parque.

Estes dois pensamentos alegraram Marcos, "Ter de volta aquilo que te pertence é algo bom", pensou ele.

Marcos por um instante idealizou uma sociedade onde as pessoas não tomam aquilo que não são delas, de um chaveiro até uma mala cheia de dinheiro. Uma sociedade onde você pode deixar sua bicicleta estacionada na guia da frente do supermercado, e ela estar lá quando voltar. Uma sociedade que não precisa de casas-fortaleza: com grades, lanças, cercas elétricas, câmeras e muros altos. Uma sociedade em que a confiança desbanca a desconfiança.

Marcos filosofava, buscava através daquele pequeno gesto, pensar em qual a melhor forma de convivermos. Ele idealizava a cidade ideal, ou pelo menos uma pequena fração desta.

"E na minha cidade ideal as pessoas não tomam aquilo que não são delas!".

Marcos decidia então pegar a nota e encontrar seu dono. Marcos abaixou-se, pegou a nota, e quando virou-se viu um rapaz olhando nos cantos do armário.

_ Perdeu algo?
_ Sim, eu sai de casa sem carteira hoje, estava com R$70,00 no bolso, a nota de R$20,00 eu gastei mas a de R$50,00 eu perdi.
_ Tem uma onça desenhada nela? _ brincou Marcos.
_ Haha, sim claro.
_ Então deve ser esta aqui que encontrei perto deste banquinho.
_ Poxa cara, obrigado! Se não achasse não ia conseguir voltar para casa hoje, obrigado mesmo!
_ Não tem de quê.

Marcos sabe que a cidade ideal existe em sua cabeça, mas sabe também que as pessoas podem ser diferentes do que são, e assim como ele poderia ter ficado com a grana, mas não ficou, as demais pessoas poderiam de alguma forma, escolher viver de forma a colocar a alegria, a satisfação do coletivo, acima dos próprios interesses. As alegrias individuais estariam mergulhadas na alegria coletiva e a vida seria boa para todos.

Sonhar não custa nada.

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