RE: 5 - Como fazem os pássaros


Eu já usei o twitter faz muito tempo, e não me lembro de ter usado muito mais que 6 meses. Lembro-me da dificuldade de escrever algo com até 140 caracteres, da alta velocidade em que os assuntos mudavam, da dificuldade de acompanha-los e principalmente do grande número de postagens inúteis que eu lia _ um pecado que até eu cometi algumas vezes.
O pessoal levou a pergunta “O que você está fazendo?” a sério demais, e postavam informações altamente importantes como “vou ao banheiro”, “quero café”, “está frio hoje”, “vou trabalhar”, “voltei do trabalho”; quando a hora e os minutos coincidiam “20:20”; um monte de #hashtags sem sentido entre outras coisas.
Encarando o twitter como um campo social, ele tem seus troféus. Ganham os troféus aqueles que postam mais vezes, são mais retuitados e tem mais seguidores, podendo ser chamados de pessoas influentes. Isso mesmo, uma pessoa influente na rede porque tem milhões de seguidores.
Existem até medidas desesperadas de pessoas quem usam robôs para mostrar ter mais seguidores do que na realidade tem. Fora os pactos de pessoas que te seguem com o único objetivo de você segui-la de volta, e ela ter mais seguidores.
Quando um artista vai na TV, alguns apresentadores tem informado “fulano tem tantos milhões de seguidores no twitter”, como se realmente isso fosse algo relevante de um ponto de vista intelectual, social _ pode até ter financeiro, quando sabemos que uma pessoa com tantos seguidores pode emplacar alguns patrocínios.
E o conteúdo da pessoa e de suas postagens? Não importa.
Jogador de futebol, apresentador de stand up, ex-BBB, cantor de música de qualidade questionável, político de honestidade questionável, artista decadente, todos eles tem milhões de seguidores a despeito dos conteúdos de suas postagens.
O ex-atleta de futebol em atividade Kaká [ele joga na MLS, ou seja, futebol amador], tem quase 25 milhões de seguidores. O astrofísico, cosmologista, autor e divulgador de ciência Neil deGrasse Tyson tem pouco mais de 5 milhões. Claro que nem mesmo no twitter do Neil todas as postagens são relevantes _ porque ele é um ser humano e se permite também falar coisas desimportantes.
[Se Einstein estivesse vivo e tivesse um twitter, quantos seguidores ele teria?]
Acho que tem razão ao dizer que o formato do twitter parece que realmente foi feito pensando no gorjeio dos pássaros: ao gorjear um som sem significado, avisa para os demais pássaros que está ali. Marca presença.
Quem é do marketing entendeu bem este conceito, e hoje vende: “Você só existe se é visto”, ou como bem parafraseou: “sou visto, logo existo”. Se eu busco o nome da sua empresa num mecanismo de busca qualquer, e não a encontro, um marqueteiro dirá que sua empresa não existe. E ele não diz: “não existe na internet”, ele diz mesmo “não existe”, como se o mundo on-line prevalecesse sobre o off-line.
O twitter cria esse efeito de fama, podendo tornar pessoas que não aparecem na TV também em pessoas famosas. E ainda que a pessoa não se torne famosa de verdade, ao ganhar um pequeno destaque, mesmo que em um nicho fechado, a pessoa vai acreditar que representa algo importante e de repente ela sente que saiu do gueto dos desconhecidos, dos normais, dos anônimos, dos medíocres, e agora ela é alguém reconhecida.
Parece muito ilusório.
A questão aqui é refletir o quanto vale gastar tanto tempo de vida postando mensagens curtas sem o menor conteúdo apenas para acreditar que se vá se tornar influente de alguma forma.A maioria dos artistas paga para alguém gerenciar os conteúdos de suas redes sociais, mas e os meros mortais? E nós que estamos na base da pirâmide? O ganho é tão maior que o desperdício de tempo? Temos tanto tempo a perder agindo como pássaros, gastando em vão toda uma estrutura cerebral que desenvolvemos?
Não faz sentido a humanidade ter chegado tão longe na construção do conhecimento para ser barrada por apenas 140 caracteres.

Saudações, de seu leitor.
Este post é uma resposta para uma das cartas que Zygmunt Bauman publicou na revista italiana La Repubblica delle Donne entre 2008 e 2009, que depois foram reunidas e editadas para o livro 44 Cartas ao Mundo Líquido Moderno(Zahar).

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