RE: 6 – Sexo Virtual


Está debaixo dos nossos narizes o quanto estamos consumindo pessoas como coisas e as descartando como coisas, a alienação do dia a dia parece não nos deixar enxergar que isso acontece, e no caso da dominação masculina, essa objetificação ganha conotações graves.
Portanto hoje, me recuso a falar de sexo, seja on-line, seja off-line.
No Brasil, que por causa do carnaval (o da tv) todos pensam ser um país liberal, é na realidade um paraíso de ignorância, hipocrisia e machismo. Se nas praias da Espanha uma mulher pode fazer um topless sem ser incomodada, aqui é quase impossível, porque os machos das cavernas simplesmente a não deixariam em paz. E se a moça reclamasse, ainda diriam que a culpa é dela por ficar com os seios a mostra.
Cheios de espertinhos de qualquer idade querendo embebedar qualquer moça com a finalidade de diminuir sua capacidade de decidir, e finalmente tentar estupra-la. E quando finalmente alguém reclama, novamente, faz-se o possível para transferir a responsabilidade para a vítima.
Os paizões de família ameaçam quem quer que sejam de se aproximarem de suas filhas, porque no fundo sabem, por experiência própria muitas vezes, do que os machos são capazes de fazer.
Os hipócritas semeiam machismo e a cultura do estupro e são os primeiros a aparecer com suas varinhas de condão achando que vão resolver o problema (do qual fazem parte) com uma simples assinatura num pedaço de papel. Mas quando se cobram destes que deixem de agir como agem, eles se vitimizam e dizem que o mundo está chato.
Tinha um clube aqui na cidade que tinha um corredor. Os homens ficavam encostados na parede, e qualquer moça que passasse ali era uma presa a ser agarrada, fora o assédio. Isso era contado com orgulho pelos frequentadores: “Agarrei tantas minas hoje”.
[Se você pensou: “ah, mas ela sabia que se passasse ali, isso ia acontecer”, é porque ainda não entendeu.]
Sem contar festas que permitem a entrada de mulheres com bebida gratuita, e depois de certo horário abrem-se as portas para os machos. Ora, ora, o que se deseja com uma coisa destas? Porque simplesmente não deixa as mesmas regras da casa para ambos os sexos, preços de entrada inclusive, e pronto? Qual o objetivo de embebedar a mulherada?
Falando em clubes, alguns prostíbulos têm feitos festas chamadas de “noite do rodízio”. Num rodízio de carnes ou de massas, garçons vão trazendo diferentes alimentos para você escolher se quer comer ou não. Pois bem, no rodízio de mulheres você paga um valor fixo de entrada, escolha quais quer, faz sexo, escolhe outra, faz sexo... enquanto aguentar ou até a casa encerrar as atividades do dia.  
Não é muito diferente dos cardápios online para escolher uma mulher para passar a noite. Em ambos os casos existe uma relação entre humanos, e sim entre consumidor e produto.
Eu queria ser imparcial, juro que queria, mas não consigo enxergar benefícios nisso. Porque uma vez que isso entre em nossas vidas e se torna um vício, vamos precisar de doses maiores, porque a satisfação da dose inicial nunca será a mesma.
[Vejo uma tragédia poética nessa questão do vício. Aquilo que nos satisfaz é exatamente aquilo que pode nos arruinar.]
P.S. Sendo homem, ao fazermos uma reflexão sobre este assunto, temos que fazê-los não sob um pedestal, mas fazê-lo diante do espelho, tentando encontrar em nós mesmos as falhas que apontamos no outro.
Saudações, de seu leitor.


Este post é uma resposta para uma das cartas que Zygmunt Bauman publicou na revista italiana La Repubblica delle Donne entre 2008 e 2009, que depois foram reunidas e editadas para o livro 44 Cartas ao Mundo Líquido Moderno (Zahar).

Rodízio de mulheres: ParanáMinasSão Paulo.

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