O mundo está chato!


No último dia 18, durante o debate entre candidatos a prefeitura do Rio de Janeiro, o candidato da igreja Universal, Marcelo Crivella (PRB), soltou o seguinte comentário ao fim do programa:

“Eu quero agradecer a você, Mariana, e dizer que esse sucesso todo é por causa de vocês. Com certeza, a beleza de vocês encantou os telespectadores e a todos”

A apresentadora Mariana Godoy respondeu com um "tchauzinho de miss", ironizando o comentário do candidato.

Não seria preciso explicar que o candidato foi machista, porque não é certo que uma pessoa tenha o mérito de seu trabalho julgado pela beleza. A afirmação dele nos faz questionar: "Calma aê, quer dizer que o sucesso profissional dela se deve pela sua beleza, e não por sua capacidade intelectual e técnica?"

Eu tive o primeiro contato com a notícia através do facebook, e, sabe-se lá por qual motivo, razão ou circunstância, me coloquei a ler os comentários. Entre estes, alguns elogiavam o gesto da apresentadora e outros questionavam a razão pela qual ela não ter gostado do comentário.

Entre os que criticaram a apresentadora, o comentário mais comum era dizendo que o mundo está chato, mas tão chato, que as pessoas problematizam até os elogios, que no meu tempo não era chato desse jeito e etc.

E mais, tenho ouvido essa falácia para todo tipo de assunto, e mais usualmente nos casos em que alguém de alguma minoria social (mulheres, LGBTs, negros, ateus e etc) aponta para um possível problema no discurso que faz parte do rol da maioria.

Apesar de tudo isso, eu concordo com quem diz que o mundo está ficando chato. Sim, anota aí, o mundo está mais chato!

Quando era mais novo assistia e ria muito dos Trapalhões, ria de todas as piadas, fosse quem fosse. Sinceramente não sei dizer o quanto ou se isso influenciou a forma como vejo as pessoas na sociedade, mas de qualquer forma, é inegável dizer que haviam muitas piadas machistas, homofóbicas e racistas. Se o programa fosse ao ar nos dias de hoje, seria muito criticado. Uma chatice, vejam só.

A TV e o rádio são mídias praticamente unidirecionais, ou seja, elas só enviam sua mensagem, e só recebem respostas dos interlocutores quando querem (Bom, eles podiam receber cartas ou telefonemas, mas estes não ficavam expostos publicamente, então não conta). Com a internet e as redes sociais, não é mais assim, você fala o que quer e vai ter que suportar as consequências do que disse publicamente.

Se por um lado a internet deu voz a uma legião de imbecis, como bem ponderou o escritor Umberto Eco, de outro possibilitou que todo um grupo de pessoas que viviam marginalizadas na opressão, pudesse se unir mais facilmente e militar dia e noite combatendo qualquer coisa que achassem de errado na sociedade, qualquer discurso de ódio, de desumanização e de preconceito.  

Diante de tudo isso eu tenho que fazer esta pergunta: O mundo está chato para quem? 

Mais chato que ouvir alguém reclamar de um comentário machista, é ser machista, desvalorizando o trabalho de uma mulher ao dizer que o sucesso dela se deu pela sua beleza e não por sua competência; mais chato que ouvir alguém apontar racismo em um discurso, é ser racista, é ser morto pela polícia, é ser excluído da sociedade; mais chato que um LGBT reclamando de homofobia, é ser homofóbico, é bater e expulsar um filho de casa por conta de sua Orientação, é ter que se esconder a noite para não ser espancado por membros da sagrada hipócrita família brasileira; mais chato que um ateu reclamando da maldita cruz do STF, é ser julgado mau caráter ou ser excluído da própria família só porque não compartilha de uma crença comum; mais chato que reclamação de deficiente físico por causa da vaga do estacionamento, é ver que os espaços públicos (inclusive prédios públicos) são lhes negado o tempo todo.

A resistência do oprimido é uma chatice pequena, semi ruidosa perante o tamanho da chatice do opressor. E não se engane, essa forma reclamação do opressor é, talvez sem que ele se dê conta, uma forma de calar o oprimido com uma falácia ad hominem, pois além de não responder ao argumento ainda tenta desqualificar o argumentador.

E para vocês que só sabem reclamar que o mundo anda chato (o que também é uma chatice), porque não fazem um exercício de consciência e tentam imaginar como o mundo poderia ser menos chato? Quais atitudes deveriam tomar para o mundo ser um pouco mais de boa?

O mundo ideal que eu acredito, não deveria haver desigualdade, oprimidos e opressores, pessoas de bem e pessoas de mal. Nós nunca vamos chegar, nem mesmo perto, deste mundo apenas divergindo, polarizando, tornando os outros e a nós mesmos piores. As verdades do mundo não podem ser monopólio de uma classe, de um gênero, de uma raça, de uma orientação, de uma crença. Estas verdades devem ser construídas em conjunto, para que todos caibamos nelas e possamos conviver no pouco tempo disponível que temos neste planeta.

É um processo chato, eu sei, mas mais chato que isso são as coisas como estão.


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