O cidadão de bem


É comum ouvirmos pessoas em algumas discussões se autointitulando como cidadãos de bem. Normalmente ela vem acompanhada, do que seria a sua antítese, o criminoso, criando assim uma (falsa) dicotomia: cidadão de bem x criminoso.

E, segundo este senso comum, quem é o cidadão de bem?

Antes de entendermos o que vem a ser um cidadão de bem, cabe primeiro entendermos a origem e o conceito de cidadania. Segundo o pedagogista Silvio Gallo em Ética e Cidadania: Caminhos da Filosofia

"Para os gregos antigos, o político era aquele que participava dos negócios da polis. Quando a cultura grega foi assumida e difundida pelos romanos, que falavam latim, a polis virou cive em sua língua. É da palavra latina cive que se origina a palavra cidade, no português, e é também dela que vem a palavra cidadão. Portanto, cidadania é sinônimo de política no sentido grego, assim como cidadão e político são a mesma coisa."

Para os gregos, aquele que não participava da política era chamado de idiota (no nosso tempo o significado é outro).

Ser cidadão mais do que um mero status, é uma prática, é aquele que participa dos negócios da cidade, ou se preferir, aquele que participa da política da cidade.

Trazendo para o nosso tempo, me recordo que na escola aprendemos que cidadãos são as pessoas que têm e usufruem de direitos e deveres dentro da sociedade.

Na democracia representativa é tirado do indivíduo parte da obrigação moral de participar das decisões da cidade, deixando-as na mão de representantes escolhidos por ele, cabendo ao cidadão apenas cumprir os deveres e exercer os direitos decididos pelos representantes escolhidos.

Ou seja, o cidadão passa de participante ativo a expectador, podendo se manifestar quando seus direitos são violados ou quando existe um abuso nos deveres a cumprir.

E quando digo "podendo se manifestar", quero dizer "pode se manifestar de acordo com leis determinadas por estes mesmos representantes", ou seja, os representantes escolhem inclusive as formas que receberão as reclamações de seus atos, podendo incriminar formas de protestos não previstas.

Ok, ok, e quanto ao cidadão de bem?

Eu entendo que para o senso comum, o cidadão de bem é aquele que cumpre seus deveres com a sociedade e exerce seus direitos, e sua antítese, o mau cidadão, é aquele que não cumpre seus deveres e não exerce seus direitos (ora, ora!).

Entretanto, existem vários problemas nessa definição.

Quando falamos em cumprir deveres e exercer direitos, estamos falando do que? Das leis? Dos costumes?

Se falamos de leis, e se os meus representantes decidirem aplicar uma lei que ao meu ver é injusta não só para mim, mas para grande parte da sociedade? Serei um mau cidadão se não a cumprir?

E se falamos de costumes, e se meu povo tem um costume que considero impróprio para muitos, serei um pária se não cumprir?

E se existe um direito que eu posso exercer, mas meu julgamento e bom senso julgam impróprios exercê-lo, serei um mau cidadão?

E se até o dia de hoje cumpri todos os deveres que a sociedade me mandou cumprir, e amanhã eu transgredir o maior destes deveres? Serei um mau cidadão? E se amanhã eu transgredir o menor destes deveres? Serei um mau cidadão tanto quanto aquele que transgrediu o maior?

E para ser um cidadão de bem, posso burlar o radar do trânsito, passar no sinal vermelho mas não posso roubar uma galinha? Posso desviar dinheiro público mas não posso quebrar a vidraça de um banco? Posso sonegar impostos mas não posso consumir drogas ilícitas?

Ou seriam os muros das penitenciárias quem fazem essa distinção?

Mas o Thor Batista matou um homem de bicicleta e não está atrás destes muros... nem jogadores de futebol e artistas que mataram pessoas estão atrás dos muros...

Então também estar do lado de dentro ou de fora dos muros também não explica.

Por eliminação chego a conclusão que eu não sei o que quer dizer, na pratica, ser um cidadão de bem ou não, dado que as pessoas, qualquer pessoa, pode cometer transgressões a lei e aos costumes a qualquer momento!

Será que o cidadão de bem existe? Ou será fruto da imaginação? Ou fruto de algum deus? Ou será pura demagogia "dateniana"?

Assassinato em SP

Este texto já estava nos meus rascunhos faz um tempo, e sinceramente eu não me lembro qual a ocasião, mas, com o crime ocorrido em São Paulo em que o ambulante Luis Carlos Ruas foi morto por espancamento por dois covardes, me fez querer terminar este texto.

Numa entrevista, um dos assassinos disse que "não se considerava má pessoa".

Façamos um minutos de silêncio.

G1 - Polícia de SP prende dois homens que mataram ambulante no metrô

Terra - Acusado de matar ambulante em São Paulo diz estar arrependido

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