Platão e porque voltar à caverna


Depois de discorrer sobre o mito da caverna, Sócrates traz a analogia para a sua cidade ideal complementando que aqueles que saem da escuridão da caverna, devem retornar a ela para compartilhar seu conhecimento com os que lá ficaram, de forma que ajudem estes também a saírem da prisão.

Mas aí você poderia fazer o papel de Glauco e perguntar: "Ok Sócrates, seu espertinho! Nem a pau que quem saiu da caverna voltaria para ajudar os que lá ficaram. E ainda que fizessem, porque razão fariam? Só se eles estivessem pirados da cabeça!"

Sócrates responde que os filósofos (que são aqueles que saíram da caverna), devem ser persuadidos a retornarem com o seguinte argumento:
"Nas outras cidades é natural que aqueles que se tornaram filósofos não participem dos trabalhos da vida pública, visto que se formaram a si mesmos, apesar do governo dessas cidades;Ora, é justo que aquele que se forma a si mesmo e não deve o sustento a ninguém não queira pagar o preço disso a quem quer que seja.
Mas vós fostes formados por nós, tanto no interesse do Estado como no vosso, para serdes o que são: os reis nas colmeias; (...) Por isso, é preciso que desçais, cada um por sua vez, à morada comum e vos acostumeis às trevas que aí reinam".
E como podemos entender isso? Vamos a um exemplo:

Digamos que você foi criado pela sua família, que na medida do possível, fizera o possível para que você tivesse saúde, educação, um bom convívio no lar e com a comunidade. Você cresce, arruma sua própria vida, e ao mesmo tempo, seus pais envelhecem e precisam da sua ajuda para alguma eventualidade.

Quando seus pais precisam da sua ajuda, você pode escolher ajudar ou não ajudar. Bom, olhando para tudo que seus familiares te deram, seria injusto virar as costas para eles, e você, sendo um filho justo, irá ajudá-los. Se você parar para pensar o porquê os ajudou, um destes motivos poderá lhe passar pela cabeça:

  1. "Por gratidão por tudo que eles fizeram por mim";
  2. "Por um senso de dever, como se fosse um pagamento por tudo que eles fizeram por mim".

O que temos aqui?

O filho, ciente que sua formação se deve em parte pelo empenho e esforço de seus familiares, se for justo, sentirá a necessidade de compartilhar com eles o que puder. Mas, caso fosse o contrário, se seus familiares em nada o ajudassem, e pior, só o prejudicassem, ele não sentiria _ ou pelo menos não deveria sentir _ a necessidade de compartilhar nada de volta.  

Voltando no que disse Sócrates e expandindo este conceito para nossos dias, quando temos um governo que não investe em seu povo, este não sentirá a necessidade de devolver nada para seu governo, criando assim uma sociedade de individualistas, que competirão contra o governo, e consequentemente, entre si, o tempo todo.

Isso soa familiar?

Quanto é o nível de apego a um governo ou sociedade, de uma pessoa de classe média-alta que paga pela educação de seus filhos, pela segurança do condomínio, pela saúde e até por sua diversão?

Próximo de zero eu diria.

Uma pessoa dessa não tem apego algum, portanto dificilmente será convencida que deve contribuir com esta sociedade. Da mesma forma um acadêmico ou médico, que acha que conseguiu tudo em sua carreira por seu puro esforço, dificilmente pensará que deve contribuir com a sociedade, e fará justamente o contrário, tomará para si o que for possível.

E uma pessoa que viveu na favela, sendo discriminada pela sociedade e correndo o risco de ser morta pelo próprio Estado, na figura da polícia: ainda que aparentemente ela pouco tenha a compartilhar, quanto apego a sociedade e ao governo ela terá?

Um governo que não investe em seu povo, que não cria estruturas adequadas para a vida em sociedade, e que por muitas vezes, acaba piorando a vida do povo, passa a mensagem às pessoas, citando os Titãs, que "é cada um por si e deus contra todos".

E porque você deveria voltar à caverna?

E quando o governo e a sociedade não ajudam em nada, é certo nos conformarmos e pensar "se não podemos vencer, nos juntemos a eles" ?

Se é certo ou não, não me cabe dizer, mas se você, como dizia Gandhi, quer ser a mudança que você vê no mundo, desistir da melhora da sociedade não é uma opção, não é mesmo?

Lutar pela construção de uma sociedade que investe em seu povo, que faz com que esse povo reconheça nos outros, apoios, e não inimigos, acaba sendo bom para todo mundo no fim das contas.

Aqueles que ganharam consciência (que saíram das trevas, da escuridão da caverna), serão mais facilmente convencidos que devem voltar para ajudar aos demais, e não ficarão isolados em seus guetos de riqueza ou em seus círculos intelectuais que apenas servem a si próprios. E se saíram desses guetos seja por gratidão ou senso de dever, não importa, desde que saíam, e voltem para a caverna ajudar os que precisam.

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