Platão e a Tirania


Finalmente chegamos a última forma de governo descrita por Platão / Sócrates, que abrange o final do Livro XIII e início do Livro IX da República.

A liberdade absoluta é o que fará com que o governo democrático entre em decadência.

Sócrates diz que exitem três classes dentro de uma democracia, e elas começam a lutar entre si:

  • Chefes: Falam nas tribunas e tomam quase todas as decisões (é equivalente ao que chamamos de políticos hoje em dia);
  • Ricos: Pessoas mais organizadas que conseguem ganhar dinheiro;
  • Povo: Trabalham com as mãos, são estranhos aos negócios e não possuem quase nada. É a classe mais numerosa, e mais poderosa, quando unida.

Ele narra que os chefes distribuem a riqueza dos ricos, e tomam uma parte para si. Os ricos para se defenderem acusam os chefes de serem oligarcas, e o povo acredita nisso e se volta contra os chefes. Os chefes, acuados, passam a atuar como oligarcas.
"Agora, o povo não tem o costume invariável de pôr à sua frente um homem cujo poder alimenta e engrandece? (...) Então, é claro que, se o tirano surge em alguma parte, é na raiz desse protetor, e não em alguma outra, que fixa o se caule."
Aqui fica claro que o povo, em apuros, escolhe um líder ou protetor, e o coloca diante de si para defender seus interesses e deposita neste protetor toda sua confiança.

[E aqui faço uma pausa para uma reflexão: Quantas vezes na história da humanidade não vimos uma sociedade em crise, que deposita toda sua confiança em uma única pessoa? É sempre importante pensarmos nos perigos que corremos quando abrimos mão de nossa autonomia e colocamos todo o poder nas mãos de uma pessoa só. A Alemanha nazista é um exemplo disso, mas existem muitos outros.]

A Ascensão do Tirano

Este protetor sabe que tem a confiança do povo, e criará um inimigo, neste caso os ricos, para conseguir unir a população em torno de um mesmo ideal.

[O governo ditatorial no Brasil usou a seleção brasileira como uma forma de unir a população, e não fez questão de esconder isso com a letra "Pra Frente Brasil":

"Noventa milhões em ação, pra frente Brasil do meu coração. [...] De repente é aquela corrente pra frente parece que todo o Brasil deu a mão. Todos unidos na mesma emoção, tudo é um só coração. Todos juntos vamos, pra frente Brasil, salve a seleção."

A ditadura na Argentina fez o mesmo, usando a Guerra das Malvinas _ ou alguém achava mesmo que a Argentina pudesse vencer a Inglaterra numa guerra?]

O protetor certamente enfrentará resistência e não serão poucos os que tentarão indispô-lo contra o povo ou mesmo eliminá-lo silenciosamente. Mas caso ele vença todos os desafios, ele desfilará em carro aberto, vitorioso e nos braços do povo.

Sócrates diz em seguida como age um tirano:

  • No começo finge ser bom e amável, promete mundos e fundos, não admite ser um tirano, adia dívidas;
  • Destrói seus inimigos no exterior;
  • Provoca guerras para se mostrar útil ao seu povo, para que o povo pense que precisa dele;
  • Desvia a atenção do povo para seus próprios problemas, para que conspirem menos contra ele [pão e circo cabem muito bem nesta parte];
  • Envia pessoas que gostam de ser livres para a guerra, para se livrar delas;
  • Elimina os críticos e as ameaças ao seu governo, sejam amigos ou inimigos. Pouco a pouco acabam as pessoas de valor;

"Sim, é o oposto da que utilizam os médicos para curar o corpo. Estes últimos fazem desaparecer o que há de mau e deixam o que há de bom: o tirano faz o contrário. (...)  Então se vê ligado por uma bem-aventurada necessidade, que o obriga a viver com gente desprezível ou a renunciar à vida"
De amado, o tirano passará a ser odiado [e Maquiável, mais de mil anos depois, dirá que é a pior coisa que pode acontecer a um líder] e precisará aumentar sua guarda pessoal. Você concorda comigo que ele precisará de pessoas de confiança, certo? Nesse caso ele não pode contar com mercenários ou com pessoas do próprio povo. E o que ele fará? Libertará os escravos e os tornará parte de sua guarda.

Este exército tem um custo, e assim que o dinheiro dos cofres terminar, o tirano aumentará os impostos sobre o povo, que se revoltará contra ele. Mas, como o povo foi enfraquecido, não terá forças para se rebelar e será fortemente reprimido.

E finalizando o Livro XIII, melancolicamente Sócrates dirá que a liberdade excessiva, gerará a mais amarga das servidões:
"Então, ao que me parece, chegamos ao que costuma chamar de tirania: o povo, de acordo com o ditado, evitando a fumaça da submissão a homens livres, caiu no fogo do despotismo dos escravos e, em troca de uma liberdade excessiva e inoportuna, vestiu a farda mais dura e mais amarga das servidões."

Considerações Finais

Antes dessa fala, Sócrates diz que o tirano é um filho do povo. O que é uma comparação que deve nos fazer pensar muito do quanto somos responsáveis pelos governos tirânicos que já tivemos, e como podemos evitar mais governos desse tipo. E quando falo tirânico, não digo necessariamente de uma única pessoa, pode ser um governo de poucas cabeças que agem da mesma forma sobre toda a população.

Por mais que a democracia tenha seus problemas, ela ainda ostenta um dos valores mais bonitos (e arrogantes, como diria Platão) que é a Liberdade. E ainda que nossa liberdade nunca poderá ser absoluta, para não entramos num caos social, ainda temos mais liberdade do que em qualquer outro sistema de governo, e devemos saber valorizar, e cuidar disso, para não cairmos num regime de servidão.

Wiki - Pra frente Brasil (canção)
Wiki - Guerra das Malvinas

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