Sobre meteoritos, egípcios e cães


Imagine que na galáxia um pedaço de algum planeta se descolou e ficou vagando, vagando... até que um dia ele se choca com o planeta Marte. Imagine que desse choque ele, em menor tamanho desta vez, uma pedra que pesa 10kg (metade do peso de um saco de cimento).

Esta pedra, ou melhor, meteorito, viaja pela galáxia por muito tempo novamente, até que um dia ela entra na órbita do nosso querido planeta Terra. Ao passar pela atmosfera o meteoro se fragmenta em 40 pedaços que caem num pacato vilarejo.

As pessoas avistaram a fumaça branca, ouviram as explosões e ficaram assustadas. Mas você, teve a visão mais rara do evento: viu uns dos fragmentos atingirem SEU pobre cachorro, que foi vaporizado sem dó nem piedade! Não sobrou nada do pobre animal!

Que sorte hein?!

E se eu dissesse que foi quase isto que aconteceu na realidade?

Pois aconteceu.

Corre véi...
Egito, 28 de junho de 1911, no vilarejo de Denshal _ aproximadamente 170km do Cairo e 60km de Alexandria, no litoral do mar Mediterrâneo.

Contam os moradores que por volta das 9h00 da manhã, pedras caíram do céu, alguns avistaram a fumaça branca e outros ouviram as explosões do meteorito que caiu. Especialistas colheram os fragmentos do meteoro, que variavam de 20 a 1813 gramas _ estima-se que seu tamanho original era de 10kg _ e foram encontrados um pouco mais de um metro de profundidade, e distante de Denshal, na vila de El Nakhla El Bahariya.

O meteorito, hoje chamado de Nakhla, é do grupo dos Meteoritos Marcianos. Acredita-se que estes meteoritos se chocaram com o planeta Marte, viajaram pelo sistema solar _ este viajou até se chocar com a Terra.

A história do cachorro, vejam bem... Mohammed Ali Effendi Hakim afirma que viu um fragmento do meteorito atingindo seu cachorro, que foi vaporizado instantâneamente. Porém ninguém mais viu além dele, e há quem não acredite nesta história de cachorro.

David Weir
http://meteoritestudies.com/protected_nakhdog.htm

Uma lenda foi perpetuada na comunidade que estuda meteoros desde que [o meteorito] Nakhla caiu e um de seus fragmentos matou um cão. O evento foi noticiado no jornal árabe "El ahali": "Um deles [fragmentos] acertou um cão, em Denshal, deixando-o em cinzas".

David argumenta que a forma como o texto foi escrito, não dá importância ao evento, o que, se fosse verdade, teria tido pelo menos uma descrição mais cuidadosa. Argumenta também que o texto não deixa explícito se o fragmento atingiu o cão, ou se atingiu os arredores. Informa que a reportagem errou ao afirmar que o evento ocorreu no dia 29 de junho, sendo que foi no dia anterior. Afirma que os moradores não viram os fragmentos atingirem o chão, pois eles caíram 33km distante de onde ficava o vilarejo

Ron Baalke Sat
http://www.mail-archive.com/meteorite-list@meteoritecentral.com/msg00816.html

Ron, porém, após ter contato com documentos da época acha que pode haver sim, a possibilidade do meteorito ter atingido o cão. Estes documentos são de  W. Hume (1911) e John Ball's (1912).

Laika no Sputnik, a 1º terráquea a orbitar a Terra
Ele questiona que Hume não se esforçou em saber se de fato algum fragmento foi encontrado em Denshal, e argumentou que o erro da data pode ter sido uma falha, assim como a CNN cometeu uma falha sobre uma reportagem um ano antes (o link acima é de 2002). A reportagem foi escrita em árabe e traduzida para o inglês, logo, pode ter sido traduzida de forma não tão satisfatória.

Nesta reportagem o fazendeiro descreve como é o fragmento que estava nas mãos dele, além de descrever como foi a queda. A descrição do fragmento é análoga a descrição de Hume e Ball.

Hume teve contato com o fragmento, que foi dada a ele pelo jornal, que foi dada ao jornal, adivinhem por quem?

Ron diz que Hume trocou carta com um oficial de Denshal, perguntando sobre a queda do meteorito. O oficial respondeu que também ouviu as explosões, viu a fumaça, mas que nenhum fragmento caiu em Denshal. Hume ao invés de investigar a cidade, ficou satisfeito com a resposta do oficial, e passou todo seu tempo buscando mais fragmentos em Nakhla, pior, nem se deu ao trabalho de falar com Mohammed Ali Effendi Hakim que supostamente testemunhou a morte de seu cão.




Agora você pergunta: digamos que o fazendeiro esteja falando a verdade, como raios um fragmento é encontrado em uma cidade, e noutra 33km distante?

Os astronômos chamam isto de Strewnfiled (campo de dispersão). É mais ou menos como na imagem. O meteorito passa, e conforme ele se fragmenta, seja por impacto com a atmosfera ou com o solo, estes fragmentos vão se espalhando pelo solo, então esta área onde eles ficam espalhados, é o tal do campo de dispersão. O meteorito Allende que caiu no México em 1969, tinha um campo de dispersão de 8 x 50 km. Ou seja, é plausível que isto pudesse ter acontecido também no Egito _ só que na época de Hume, este termo não era conhecido ou sequer estudado dessa forma, então por isso ele pode ter deixado isto de lado.

Dois destes fragmentos do Nakhla foram doados pelo governo egípcio ao museu britânico. Veja aqui neste link do Natural History Museum.


Etimologia

A palavra meteoro vem do grego, metá significava “além, mais adiante” e aeirô, “ergo, elevo, levanto no ar”. Meteoro para os gregos era qualquer fenômeno na atmosfera, como a chuva, trovão, etcetera.

Meteorologia é a ciência que estuda os fenômenos da atmosfera, como a previsão do tempo, mas não só isso.

Para nunca mais errarmos, a pronúncia e escrita correta é METEOROLOGIA, e não metereologia. Estudo das coisas do ar.

O meteorito que caiu na Russia

O que é o que.

Aproveitando o assunto...

Meteoritos são partículas que causam os meteoros. O rastro luminoso de um meteorito é um meteoro. Ou seja, quem cai é o meteorito.

òrbita do cometa Halley
Meteoróides são os meteoritos antes de entrarem na atmosfera, ou seja, são destroços de outros corpos (como cometas) que vagam pelo espaço. São bem pequenos e muitos até se chocam com a atmosfera e voltam ao espaço.

Cometas são pequenas “bolas de neve sujas” formadas por uma mistura de gelo, gases congelados e poeira. Viajam três vezes mais rápido do que os asteróides e só são visíveis quando estão próximos do Sol.

Asteróides são formados por rocha e metal e seus tamanhos podem variar: desde pedrinhas até 934 km de largura(!). A maioria se comporta de forma ordenada, ficando em órbita ao redor do Sol num cinturão de asteróides localizado entre Marte e Júpiter.


Ouçam este ótimo PodCast do Jovem Nerd e sua galera sobre o assunto, muito legal!

Fontes:
Feira de Ciências
Discovery Brasil

Auf Wiedersehen!

Comentários