RE: 3 - Conversas de pais e filhos


“Você me diz que seus pais não entendem, mas você não entende seus pais. Você culpa seus pais por tudo, isso é absurdo. São crianças como você”.
Esta parte da canção do Legião Urbana ilustra bem o assunto.
É bem assim mesmo, os mais velhos acusam os mais jovens de serem mimados (entre outras coisas) e os mais novos devolvem a acusação, os chamando de ignorantes (entre outras coisas).
Para ficar num exemplo simples, é comum ver em páginas de redes sociais as pessoas de uma classe de idade, ficarem exaltando as coisas “de seu tempo” dizendo coisas como “quem teve infância de verdade, fez x coisa”, como se houvesse algo como “infância de verdade”.
E o mais engraçado é que a diferença de idade nem é tão gritante assim. Não chega a ser um idoso falando para uma criança, mas sim, alguém da faixa dos 30 falando para alguém com metade de sua idade.
Não sei se é sempre de má fé que isto é feito, ou se há de fato uma incapacidade de uma geração não perceber as diferenças que tem da outra. Pela sua fala, a incompreensão geracional é algo que de fato existe, e surpreende pelo fato que, se antes era uma incompreensão entre uma criança e um idoso, agora é uma incompreensão por pessoas de quase a mesma faixa de idade.
Acompanho muito futebol, e já ouvi técnicos (idosos ou quase) reclamando que os atletas mais novos são mimados, e que alguns deles faltam em jogo porque tem que estudar _ como se isso fosse errado _ e em seguida dizem “porque no meu tempo... (qualquer coisa)”.
É a típica frase de gente velha.
Não entende a geração mais nova ou tem dificuldade em lidar com ela, e tenta em vão recorrer ao passado. E não há muito que fazer, cada geração tem seus valores, tem aquilo que ela considera como normal.
Outra coisa que parece boba é a sensação de que as coisas da vida mudam.
“Ora, é claro que as coisas mudam!”.
Por exemplo, estava lendo uma reportagem de uma italiana que tem 116 anos. Se formos listar todas as grandes coisas que aconteceram no mundo de 1899 até hoje, teríamos uma lista enorme. Talvez uma lista maior do que de coisas que aconteceram entre os anos 1.500 e 1.900, não tenho certeza.
E aí que a obviedade sai de cena. Porque se hoje em dia tudo muda muito rápido, não podemos dizer o mesmo de épocas passadas.
Pense em um camponês na época do feudalismo. Tudo que ele aprendeu em sua vida, iria repassar para seus filhos, e como sua vida foi praticamente a mesma, sem grandes novidades, seus filhos, netos e bisnetos muito provavelmente teriam uma vida parecida com a dele. A chance de algo mudar drasticamente existia, mas era mais fácil como consequência de uma guerra do que através de algum avanço econômico ou tecnológico.
Estas diferenças da forma de pensar e agir de uma geração para outra sempre foram evidentes, mas realmente, parece que a alta velocidade das mudanças no mundo (ou diria: alta liquidez do mundo) cria abismos cada vez maiores.
Fico pensando apenas, se hoje em dia com tanto acesso a informação, com o acesso aos mesmos produtos, com os idosos adentrando a era digital e se unindo aos jovens num mundo cada vez mais socialmente virtual _ onde o perfil conta muito _ se não pode haver uma nova distinção da percepção entre novos e os velhos. Assim, não contaria tanto a idade de cada um, mas sim a capacidade de se adaptar as mudanças, onde aqueles que se adaptam estariam de um lado, e os que não, os ultrapassados, ficariam para trás.
É como quando você encontra um idoso que fala como jovem, que faz algumas coisas de jovem, mas não no mundo real, e sim no mundo virtual, onde ele poderia reduzir esta distância geracional.
Talvez eu esteja viajando... mas a ideia aqui é essa também.
E, antes de encerrar, preciso dizer, no que diz respeito aos jovens do Brasil, desde 2013 os vemos (filhos e netos de quem viveu na época da ditadura militar) dando exemplo de luta pelos seus direitos. Havia quem pensasse que era fogo de palha, mas eles ainda continuam lutando nas ruas, nas escolas, nas redes sociais. Se a cara da próxima geração for desta juventude lutadora, espero estarmos num bom caminho _ se os mais velhos vão entender e apoiar, não se sabe...  
Saudações, de seu leitor.
Este post é uma resposta para uma das cartas que Zygmunt Bauman publicou na revista italiana La Repubblica delle Donne entre 2008 e 2009, que depois foram reunidas e editadas para o livro 44 Cartas ao Mundo Líquido Moderno (Zahar).

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