Escola sem partido, escola sem sentido



Ideologia


Acredito que o primeiro ponto é entender o que é ideologia. E para quem acha que é só olhar no dicionário o significado da palavra, já começou errado. Porque existe ideologia até no significado de uma palavra.

Ver a ideologia como aspecto positivo, seria afirmar que somos todos feitos de ideias, de valores, filosofias de vida. Ou seja, a ideologia é aquilo que nos constitui socialmente, define como agimos e pensamos. A ideologia vista como aspecto negativo, se refere as ideias distorcidas, mistificadoras ou ilusórias, expressa um interesse dominante e a sustentação dessa dominação. Ela pode ser ainda vista como dinâmica, ou seja, como se dão os modos de agir, criar, produzir ou manter as relações sociais. Nesta última, entender um aspecto ideológico significa compreender a maneira pela qual ela opera na formação e transformação da subjetividade humana.

Vista por uma abordagem neutra, a ideologia é um estudo das ideias ou conhecimento socialmente condicionado, ou seja, positiva. Já a abordagem crítica vê a ideologia como fenômenos enganadores, ilusórios e parciais, ou seja, negativa.

E porque eu disse tudo isso? Para entendermos que ideologia não é uma coisa só e que a simples leitura de seu verbete não dá conta de responder o que ela é.

Dominação


Antes de entender o que é dominação, precisamos entender o que é poder.

Poder é a capacidade de agir para alcançar um objetivo. A ação, por sua vez, é o gasto ou emprego de recursos disponíveis _ o que o filósofo francês Pierre Bourdieu chama de capital simbólico.

Dominação é quando uma pessoa expropria poder (capacidades) de outra, ou quando relações de poder são desiguais.

Quem tem mais capital simbólico tem mais capacidade de dominar os demais, ou seja, de expropriar poder dos outros.

Um patrão que detêm os meios de produção, tem a capacidade de contratar quem seu dinheiro conseguir pagar, e exigir que este empregado faço aquilo que ele manda sob a constante ameaça de ser despedido. Se produzir mil peças, não ganha sobre cada uma das peças, apenas ganha o salário previamente combinado.

Um marido que manda na esposa, dizendo a ela como se vestir, como se portar, quando deverão fazer sexo ou determinando quantos filhos quer ter. Ele tem mais capacidade de agir que ela, e usa dessa capacidade (capital simbólico) para expropriar poder dela, fazendo-a submissa as suas vontades.

Existem várias formas de sustentar uma relação de dominação: dissimulação, unificação, fragmentação, legitimação, etc. Vou ficar apenas num exemplo, que é o da naturalização:

"Isso não é natural", "Isso não é normal". É o tipo de afirmação que tem como objetivo fazer com que alguém obedeça um comando, ou abandone uma forma de agir ou pensar, ou de se conformar com algo. Para ser mais exato, é o entendimento que nossa realidade é assim mesmo, imutável, imanente, inexorável e não um processo de construção histórico e social.

Há quem considerava (e hoje ainda há quem considere) que não seja normal uma mulher que dirija um carro, um ônibus ou mesmo pilote um avião. O que é um absurdo, porque com o devido treinamento qualquer pessoa com capacidades motoras, psíquicas e intelectuais requeridas pode aprender. Estatisticamente pode ser que haja poucas mulheres que o façam, mas não é algo inexorável.

Não era normal mulher trabalhar, não era normal não querer ter escravos, não era normal querer viver numa democracia, não era normal casar por amor, não era normal amar os filhos, e hoje não é normal não ter um facebook, não ter um celular, não tomar bebida alcoolica, não ver series do netflix ou ter um cartão de crédito. Ao passar os olhos pela história das sociedades, todas elas têm seus costumes que se transformam de tempos em tempos, não há razões para acreditar que costumes sejam fixos, imutáveis ou imanentes. E neste mundo líquido que vivemos, as transformações se dão a olhos vistos.


Escola sem partido


Tendo em mente o que é ideologia, poder e dominação, finalmente chegamos aqui.

Eu poderia ter começado daqui, poderia assumir que estes conceitos estão claros na cabeça de todo mundo, mas dado o que tenho lido e ouvido por aí, sei que não estão.

Em muitos anos na escola, (teoricamente) aprendemos de tudo. Há algo de ideológico desde a concepção da educação em si mesma (para que a educação?), passando pelo formato de uma escola (qual a escola ideal?), permeando seus conteúdos (o que deve ser ensinado?) e que desaguam na sociedade, isto é, toda a ideologia da educação tem seus efeitos na sociedade.

Se a escola busca formar seres humanos melhores, toda a sua estrutura será pensada de uma forma; se a busca da escola for formar decoradores lobotomizados para concursos e vestibulares, seu formato será outro.

Escolhemos uma estrutura de escola em forma de prisão, com grades, disciplinas, séries, uniformes, notas, provas, inspetoras, diretoras, delegacias de ensino e sinal para o banho de sol. Não há espaço para o diferente, não há escolhas, não há diálogo, é tudo imposto de cima para baixo.

Sobre os conteúdos, poderia citar inúmeros exemplos, como o período que convencionamos chamar de Renascimento.

Quando falamos "Época do Renascimento" sabemos que trata-se do período de transição do feudalismo para o capitalismo, ruptura com a Idade Média, além das diversas mudanças culturais, descobertas científicas e as navegações.

Faz sentido um europeu chamar este período de Renascimento, mas, os americanos (sabe, quem nasce na América) não tem o menor cabimento. Nesta época os europeus invadiram as Américas, genocidaram e escravizaram os índios, roubaram tudo que podiam e ainda fizeram colônias. Pense que há 500 anos esta terra era habitada por milhões de índios, e hoje, por milhões de brancos e negros, enquanto os índios ficam guardados em áreas de preservação como se fossem bichos de zoológico. Países como a Inglaterra, Holanda, Portugal e Espanha enriqueceram neste período que tanto chamam de Renascimento e que poderíamos sem exagero chamar de Holocausto Americano ou Indígena.

Porque contamos a história do ponto de vista dos europeus, se não somos europeus? A quem serve este ponto de vista? Quem foi que pensou nisso? Porque pensou nisso? Porque omitir ou minimizar os impactos da invasão europeia sobre os povos destas terras?

Ora, um professor que propusesse este tipo de ponto de vista, de questionamento, contrário ao dominante, seria um ideólogo? Porque afinal, mentindo ou inventando desculpas ele não estaria. O professor já se deixa dominar pelas estruturas da escola convencional, se se permitir não se opor a dominação também do conteúdo, apenas o estará reproduzindo.

Não é possível achar que uma única visão _ a dos vencedores, dominantes _ seja satisfatória para que os alunos entendam como o mundo funciona.

Fazendo um mea culpa, tive poucos professores que claramente colocavam dentro da sala de aula suas posições políticas e diziam aos alunos o que deviam apoiar ou se opor. E isso considero um equívoco por parte de qualquer educador, seja professor, pai, mãe, amigo ou sacerdote.

O processo de educação não deve ser de intimidação, de imposição, de dominação. Um educador não deve se valer de sua posição para dizer aos outros o que pensar. Ele deve dar luz ao aluno, que por definição é aquele que não tem luz. Um educador tem que mostrar os caminhos possíveis, e cabe ao aluno decidir qual trilhar. E isso se dá aconselhando melhor os educadores, e claro, dando a liberdade necessária para que estes mostrem estes mundos possíveis _ não os mantendo sob vigília.

Agora, cá entre nós, quem estudou em escola pública sabe as poucas condições (conteúdo, infraestrutura) que dispõe um professor para ensinar os alunos. Para piorar, as faculdades privadas não formam bons professores que acabam tendo que aprender seu ofício in loco. E porque tragédia pouca é bobagem, ainda temos pais que terceirizam todo seu compromisso de educar os filhos para a escola, como se o professor tivesse a obrigação de ensinar valores para os filhos dos outros.

Cada vez que criamos uma lei, admitimos como sociedade nossa incapacidade de lidarmos com um problema pelo bom senso. Ao mesmo tempo, devemos entender que as leis (entre outras formas de controle social) são criadas pelos dominantes com algum tipo de interesse.

Maquiável já dizia que nas cidades existem duas grandes tendências na relação entre o povo e seus governantes: o povo não quer ser governado nem oprimido, já os governantes querem governar e oprimir. Não só por isso, mas por mera observação, percebe-se que o Estado deseja regular tudo que foge de seu controle: manifestações, relações familiares, relações comerciais e até relação com o próprio corpo. E já passou da hora de pararmos de nos enganar, o Estado não é um ente neutro, um mero observador e conciliador.

Quando um governante injeta bilhões para salvar um banco, enquanto corta dos direitos sociais, ele acaba de acenar de qual lado está. Quando um governante se permite financiar por uma empresa, e depois paga o favor com licitações e perdões de dívidas, ele também acena de que lado está.

Do jeito que o tema está dado, e sua circunstância, esta tal escola sem partido é na minha visão uma verdadeira cortina de fumaça de políticos conservadores que estão surfando na onda do conservadorismo da população, e como sempre fazem, apelam para questões de cunho moral.

Você sabe que dominação funciona quando o dominado passa a defender quem o domina, numa espécie de Síndrome de Estocolmo. A escola sem partido, e sem sentido, só ajudará a reforçar este tipo de perfil. Cada vez mais a educação, seja fundamental, média ou "superior" tem sido usada como esteira de mão de obra docilizada, imbecilizada e alienada para servir aos que detem o poder.

A escola sem partido é meramente um ataque conservador contra quem pensa diferente, acusando o outro lado de ser ideólogo enquanto se é ideólogo, o que caracteriza uma clássica hipocrisia.

A idade das trevas parece se aproximar cada vez mais deste imenso país.

Referências
Psicologia Social Contemporânea - Maria da Graça Corrêa Jacques, Marlene N. Strey, Nara Maria G. Bernardes, Pedrinho A. Guareschi, Sérgio Antônio Carlos e Tânia Maria G. Fonseca - Editora Vozes, 2013.

O Príncipe, Nicolau Maquiavel

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