O trabalhador


O trabalhador nasceu.

O trabalhador não sabia, mas já teria a profissão do pai.
O trabalhador ganhou ferramentas de plástico para treinar.
O trabalhador não tinha pai, porque o pai era trabalhador, assim como ele seria.
O trabalhador não tinha mãe, porque a mãe era trabalhadora, assim como ele seria.
O trabalhador tinha seus avós, que trabalhavam cuidando dele.
O trabalhador, um pouco maior, aprendia o valor do trabalho e fazia pequenos trabalhos.
O trabalhador ia para escola, porque quando crescesse teria que assumir um trabalho.
O trabalhador entendeu que o trabalho de seu pai era infeliz, não queria aquele trabalho.

O trabalhador teve que trabalhar de aprendiz, mas não aprendia muito, só trabalhava.
O trabalhador descobriu que tinha que ir para faculdade, para ter um trabalho melhor.
O trabalhador arrumou um estágio, para aprender, mas também não aprendia, só trabalhava.
O trabalhador quis descansar, mas tempo é dinheiro, mente vazia é oficina do diabo e o trabalho dignifica o homem.
O trabalhador vendia as férias e se sentia orgulhoso com as plaquinhas de funcionário do mês.
O trabalhador não via seus amigos porque ele trabalhava, porque eles trabalhavam.

O trabalhador arrumou uma esposa, do trabalho.
O trabalhador tinha filhos, mas seus filhos não o tinha, porque trabalhava.

O trabalhador queria um emprego melhor ainda, e foi atrás de um diploma melhor.
O trabalhador não conseguia ser chefe, não tinha QI suficiente, mas ainda assim se culpava.
O trabalhador não pensava em crise, trabalhava.

O trabalhador tomava remédios para dores físicas e mentais.
O trabalhador se embebedava nas suas folgas.

O trabalhador entendeu que era infeliz, mas que a culpa só podia ser dele.
O trabalhador defendia o sistema, achava o mundo justo e meritocrático.

O trabalhador teve ataque cardíaco.
O trabalhador além de não morrer, foi trabalhar de atestado.
O trabalhador foi aplaudido.
O trabalhador foi demitido.

O trabalhador entrou em depressão, não porque não tinha dinheiro, mas porque não tinha trabalho.
O trabalhador tinha um amigo, que tinha um primo, que tinha uma amante que lhe deu outro trabalho.

O trabalhador, com muito custo, se aposentou.
O trabalhador foi convencido a tirar férias.

O trabalhador foi até o alto da mais bela montanha e viu o mais belo pôr do sol.
O trabalhador respirou fundo a liberdade, a sentiu invadí-lo por todos seus poros.
O trabalhador não suportou tamanha liberdade e ficou tonto.
O trabalhador caiu.

O trabalhador morreu.

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