Platão e a Igualdade dos Sexos


É engraçado pensar que ainda nos dias de hoje, muito se discute sobre o papel da mulher na sociedade, e quais os supostos espaços que elas deveriam ou não ocupar. Há quem realmente acredite que existam atividades que são de "homens" e atividades que são de "mulheres". Há quem acredite que homens e mulheres tenham naturezas distintas, e essa natureza (seja lá o que isso queira dizer) seria suficiente para determinar o que cada um deve fazer dentro da sociedade,

Essa discussão não é nova, e estaríamos tentados a pensar que as ideias acerca desse assunto avançaram com o tempo, quando na realidade não é bem assim.

Há mais de 2000 atrás houve quem registrou que homens e mulheres deviam ser iguais e poderiam exercer as mesmas atividades. Essa pessoa foi um filósofo chamado Platão, que em sua obra A República (Livro V), através do filósofo Sócrates, nos deixou uma reflexão de como se daria o convívio das mulheres na sociedade.

Breve resumo

Antes de chegarmos ao assunto, é necessário entender um pouco da obra.

O tema principal da obra A República, é a Justiça. Platão da voz a Sócrates, que num jantar debate o tema com outros amigos, que tentam através do diálogo, buscar uma compreensão sobre o assunto.

Ao ler a obra, se perceberá que o estilo de Sócrates não é o de fazer afirmações, ele normalmente faz perguntas em cima das afirmações de seu próprio "adversário", muitas vezes fazendo-o se contradizer sobre algo que este considerava como verdadeiro,

Este caráter é percebido logo no Livro I, quando Trasímaco _ que se irrita muito com Sócrates _ o acusa:

Trasímaco: _ Percebo claramente. Para que Sócrates se entregue à sua ocupação habitual, não deve responder. E, quando alguém responde, apodera-se do argumento e refuta-o.

Sócrates: _ Mas como, meu nobre amigo, alguém poderia responder em primeiro lugar, se não sabe e se confessa não saber (...) ?

Trasímaco: _ É esta a sabedoria de Sócrates: recusar-se a ensinar, ir instruir-se com os outros e não se mostrar reconhecido por isto! 

No livro II, Sócrates sugere a Glauco que eles comecem a investigar o que é a justiça criando uma espécie de cidade ideal (ou justa), argumentando que como a cidade é feita de uma organização de pessoas, se a justiça for encontrada na cidade, depois será possível encontrar a justiça nos indivíduos.

No livro IV, é encontrado o que é a justiça na cidade: "Cada indivíduo na cidade deve ocupar-se apenas de uma tarefa, aquela para a qual é mais apto por natureza".

Isso quer dizer que se uma pessoa é apta para ser guerreira, deve ser guerreira; se é apta para o governo, deve governar; se é apta ao comércio, deve ser comerciante e assim por diante.

Sócrates ainda determina que uma cidade justa tem quatro virtudes: Sabedoria, coragem, temperança e justiça.

O indivíduo justo, será aquele que tiver as mesmas virtudes da cidade justa. A cidade injusta, por sua vez, é aquela que permite que as pessoas não realizem as tarefas tais quais suas aptidões e o indivíduo injusto, aquele que não tiver as virtudes da cidade.

Livro V

É preciso lembrar que na Grécia daquela época, as mulheres, as crianças, os estrangeiros e os escravos não eram considerados cidadãos, ou seja, não podiam participar da vida pública da cidade.

No livro V começa-se a discutir o papel das mulheres dentro da sociedade.

O cerne da discussão é quando Sócrates é acusado de cair em contradição, ao afirmar que homens e mulheres poderiam exercer as mesmas atividades, ao aceitar inicialmente que homens e mulheres tem naturezas diferentes _ lembrando que o conceito de justiça é que cada pessoa faça apenas uma tarefa de acordo com sua natureza.

Ora, se homens e mulheres tem naturezas diferentes, como poderiam exercer as mesmas tarefas ? Sócrates tira uma carta da manga:

_ Insistimos em dizer que naturezas diferentes não devem ter os mesmos empregos, ao passo que de forma alguma analisamos de que espécie de natureza diferente e de natureza própria se trata, nem sob que relação as diferenciávamos quando atribuímos às naturezas diferentes funções diferentes e às naturezas funções idênticas.

Aqui ele demonstra a seus companheiros que o conceito de natureza não fora identificado, ou seja, quando falamos "natureza", do que estamos falando?

Em seguida ele pergunta a Glauco (adaptação minha):

_ Glauco, se admitirmos que carecas e cabeludos tem naturezas diferentes, seria razoável proibi-los de exercer uma mesma atividade?
_ Isso seria ridículo!
_ Exato, pois as naturezas que considerávamos não eram absolutamente idênticas ou diferentes, mas considerávamos o caráter dos empregos, das funções.

Segue daí que são as aptidões de homens e mulheres que devem ser consideradas, para dizer quais tarefas exercerão na sociedade, e não o fato de serem apenas machos e fêmeas. Ou seja, quando falamos de "natureza", o caráter que é levado em consideração é a aptidão de cada um, não importando se é homem, mulher, cabeludo ou careca.

Claro, Sócrates vai afirmar que as mulheres são mais fracas que os homens (imagino que esteja falando fisicamente), e que a elas deve ser dado atividades que possam suportar.

Sócrates: _ (...) meu amigo, não há nenhuma atividade que concerne à administração da cidade que seja própria da mulher, enquanto mulher ou do homem, enquanto homem; ao contrário, as aptidões naturais estão igualmente distribuídas pelos dois sexos e é próprio da natureza que a mulher, assim como o homem, participe de todas as atividades, ainda que em todas seja mais fraca do que o homem.

Portanto, Sócrates argumenta que as mulheres que tem aptidão para defender a cidade, devem fazê-lo, as que tem aptidão para a medicina, devem estar na medicina e assim por diante.

Naturalização

Em ideologia, naturalização é quando alguém acredita que uma situação é natural, e não que seja resultado da ação humana.

Por exemplo, dizer que os homens sejam mais fortes fisicamente que as mulheres, pois seus corpos se desenvolvem mais que os das mulheres, é algo natural. O machismo por sua vez não é algo natural, ele é resultado das relações sociais, da ação humana.

Estou dizendo isso porque o típico argumento falacioso "sempre foi assim" é muito utilizado para se manterem relações de desigualdade na sociedade. Aproveita-se do fato de muitas pessoas não pensarem que as coisas poderiam ser diferentes do que são, que não existe a necessidade que certas relações continuem como estão.

A fala de Platão através de Sócrates, mostra que há mais de 2000 anos havia quem já pensasse diferente, e que propunha uma nova forma de organização da sociedade. E com todo este tempo passado, isso ainda é um problema em nossa sociedade atual, não apenas no ocidente, mas também no oriente e oriente-médio.

A pergunta que fica é: até quando?

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