Platão e a Democracia


Continuando a falar sobre as formas de governo de Platão, vamos a democracia o/

Democracia

A democracia surge do colapso da oligarquia, e isso se dá quando a acumulação e a exploração dos ricos se torna insuportável

A cidade na democracia é livre. As pessoas são livres para viver suas vidas e fazerem o que quiser. Não precisam mandar e nem obedecer ninguém. Os cargos públicos podem até existir, mas as pessoas cumprirão esse papel por vontade própria. Uma constituição pode ser escolhida, e o povo se orientará por ela.
"Desse modo, é provável que seja o (governo) mais belo de todos. Como um traje colorido que ostenta toda a gama das tonalidades, oferecendo toda a variedade dos caracteres, poderá parecer de uma beleza irretocável". 
O filósofo vai além em sua analise, e fala também do homem democrático, que deverá se assemelhar a cidade democrática.

Desejos Necessários x Desejos Supérfluos

Antes de falar do homem democrático, Sócrates explica para Adimanto os tipos de desejos existentes:

Os desejos necessários são proveitosos, são aqueles que não podemos rejeitá-los e que nos convém satisfazê-los. A fome, por exemplo, é um desejo necessário, primeiro porque temos fome independente da nossa vontade, e porque precisamos comer para nos mantermos vivos.

Os desejos supérfluos são dissipadores, são aqueles que podemos rejeitar, não produzem nenhum bem, e pior, podem nos fazer mal. Por exemplo, comer muito, comer um monte de porcaria que faz mal para saúde ou comer só pratos requintados, que tornam a pessoa fresca e elitista [É o que eu acho que ele diria, se vivo fosse].

"Ok, mas o que isso tem a ver com o homem democrático?",  talvez pergunte você, nobre leitora ou leitor.

Pois é, ele dirá que o homem democrático não sabe a diferença entre estes desejos, e os trata de forma igual!
"Vive assim, dia após dia e abandona-se ao desejo que se apresenta. Hoje embriaga-se ao som da flauta, amanhã beberá água pura e jejuará. Ora se exercita na ginástica, ora se entrega ao ócio e não se preocupa com nada; ora parece dedicado na filosofia."
Assim como a cidade é aquele belo pano cheio de cores, assim também é o homem democrático.

Decadência

Assim como na oligarquia seu maior bem é a riqueza, e seu excesso é sua perdição; o mesmo se dará com a democracia, cujo maior valor é a liberdade, e seu excesso, também será sua perdição.
"(...) o pai se habitua a tratar o filho como seu igual e a temer os filhos dele. Que o filho se assemelha ao pai e não respeita nem teme os pais, porque quer ser livre. (...) O mestre receia os discípulos e lisonjeia-os, os discípulos fazem pouco caso dos mestres e dos pedagogos."
Aqui Sócrates defende uma espécie de hierarquia nas relações, dizendo que se estas hierarquias forem quebradas, porque existe o desejo de liberdade absoluta, estas relações se degradarão, e em seguida entraremos num estado de anarquia.
"Com tanta liberdade, a alma dos cidadãos ficará tão melindrosa que a mínima aparência de opressão estes se indignam e se revoltam. Em seguida se voltarão contra as leis escritas e não escritas, para que não tenham nenhum senhor".
E depois do estado de anarquia, entraremos num estado de tirania:
"Pois então, meu amigo, é este governo tão belo e arrogante que dá origem à tirania".

Cuidar da Democracia

Costuma-se dizer que a democracia é o pior regime com a exceção de todos os outros.

E uma das principais dificuldades é como fazer com que milhares ou milhões de pessoas livres e autônomas concordem com um determinado conjunto de regras e costumes. Como alinhar (colocar na linha) tanta gente?

Seria inocente acharmos que não existam formas de alienar e controlar as pessoas, como fazem a mídia e a religião, por exemplo, que tentam moldar o pensamento das pessoas segundo seus próprios interesses.

Mas ainda assim, muitas dessas pessoas podem se libertar dessas e de outras formas de controle e agirem livremente. E elas lutarão por outras formas de viver a vida que são completamente diferentes das que são normalmente aceitas, e não aceitarão sofrer violência física ou emocional por desejarem o que desejam.

Como manter uma sociedade tão divergente funcionando?

Quando o ex-governador do Ceará, Ciro Gomes (goste-se dele ou não) diz que a democracia não é um regime de concessão, e sim de conquista, faz muito sentido nessa visão de democracia platônica.

A democracia ainda que tenha na liberdade seu principal valor, não pode se deixar engolir por essa mesma liberdade.

[O que é uma visão até hobbesiana, de se entregar parte da liberdade para que o Estado cuide de nós, porque sem ele, faríamos uma guerra de todos contra todos... mas isso é outra história]

No próximo post, veremos como a decadência da democracia gera o pior de todos os regimes: a Tirania.

Comentários

  1. Oi Ricardo, já comentei antes aqui (ou não?), mas de novo ninguém da uma justificativa ética-moral lógica para conceitos como justiça e governo, nem por que a democracia (moderna) seria o ideal, o princípio democrático não pode ser válido por si mesmo.
    "Somente pelo fato que a democracia tem se tornado uma vaca sagrada na política moderna pode-se
    explicar o porquê da extensão com que a ideia de governo majoritário é conduzida com contradições internas
    é quase geralmente omitida: primeiro, e isto já é decisivo, se a democracia é aceita como justificada,
    então também deve ser aceita uma abolição democrática da democracia e uma substituição ou por
    uma autocracia ou por um capitalismo libertário – e isto demonstraria que a democracia como tal não
    pode ser tida como um valor moral. Da mesma forma teria de ser aceito como justificado se as maiorias
    decidissem eliminar as minorias até o ponto onde houvesse apenas duas pessoas, a última maioria, pelo
    que a norma de maioria não poderia mais ser aplicada, por razões lógico-aritméticas. Isto provaria novamente
    que a democracia não pode, per se, ser considerada justificável. Ou, se não se quisesse aceitar estas
    consequências e ao invés, adotar-se a ideia de uma democracia constitucionalmente limitada e liberal,
    ter-se-ia ao mesmo tempo de admitir que os princípios de onde se derivam tais limitações devem portanto
    ser logicamente mais fundamentais que a regra da maioria – e isto novamente iria apontar para o fato que
    não pode haver nenhuma moral particular na democracia. Segundo, a aceitação da regra de maioria não
    é automaticamente clara para a população com relação ao quê deve ser aplicada. (A maioria de quê população
    deve decidir?) Aqui há exatamente três possibilidades. Cada uma se aplica ao princípio democrático
    novamente com respeito a esta questão, e decide por optar pela ideia que as maiores maiorias devem sempre
    prevalecer sobre as menores – mas então, obviamente, não haveria um modo de salvar a ideia de uma
    democracia regional ou nacional, já que ter-se-ia de escolher a população total do globo como um grupo
    de referência. Ou, decidir-se-ia que a determinação da população é uma matéria arbitrária, mas neste caso,
    ter-se-ia de aceitar a possibilidade crescente de secessão das menores minorias das maiores, com cada indivíduo
    humano sendo sua própria maioria autodeterminante, como o ponto final lógico de tal processo
    de secessão – e mais uma vez a injustificabilidade da democracia, como tal, terá sido demonstrada. Terceiro,
    poder-se-ia adotar a ideia que a seleção da população ao qual o princípio de maioria é aplicado não
    é feita nem democraticamente, nem arbitrariamente, mas de alguma forma diferentemente – mas então,
    novamente, ter-se-ia de admitir que qualquer que fosse este princípio diferente que viesse a justificar tal
    decisão, deveria ser mais fundamental que a própria regra de maioria, e a regra de maioria deveria ela
    mesma ser classificada como completamente arbitrária"
    Ou seja se o princípio democrático é aceito como válido, e se a maioria decidir substituir a democracia por outra forma de governo, fazendo isso "democraticamente";
    E se a maioria quiser passar "regras" para "eliminar" politicamente a maioria, pode?
    Se maioria decidir democraticamente roubar, matar ou escravizar é válido?
    Se você respondeu não as seguintes alternativas da ultima pergunta, os princípios que fundamentam roubo, assassinato e escravidão como "errados" mesmo feitos democraticamente são considerados mais fundamentais que a democracia... .
    Além do mais o que é justiça?Para que serve a justiça?Como determinar o que é justo?
    E a que maioria tal regra deve ser aplicada, isso é decidido aleatoriamente?Por que uma minoria não pode se separar da maioria? E como se decidiu pela maioria desse país e não do continente ou do mundo?Posso me separa do meu "governo" atual?Se não, quem ou que princípio me diz que não posso?

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